quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Sagitariana - notas clandestinas sobre Marília Spencer nº 1




Seu codinome: Marília Spencer.

Fazia política com amor. Fazia do amor sua política.

Quando nos encontramos o Sol estava em Libra. Mas a nação não estava em período de justiça.
Ascendia ao poder a direita com toda a sua força reacionária. Misturavam fé, falso moralismo e truculência. Os anos eram de chumbo.

Eu já passava dos 50. Ela ainda não chegara aos 30. Mas, podem acreditar que a adulta entre nós dois era ela. Corajosa militante de esquerda. Um extremado senso de justiça. Séria e calada. Sua timidez só cessava com algumas doses de cachaça.

Comecei essas notas clandestinas por conta de seu sumiço. A ausência e a saudade provocam uma dor estranha, que certo amigo poeta chamava de o abraço no vazio. Segundo ele, só conseguia escrever, quando compungido por essa angústia do desabraço e da perda do ser amado.

Acredito que toda a literatura séria vem da angústia. Não creio em boa literatura quando é feita só por diletantismo e para o entretenimento.

Sobre Marília, tenho algumas considerações

Nascida sob sagitário, trazia marcas no corpo e na alma. Umas alterações de humor que a faziam mudar de tom em poucos segundos. Mas quando amava era intensa e leal. Não é comum nas sagitarianas a infidelidade. Isso dizem os astrólogos. O que, no entanto, não se deve levar ao pé da letra. Os astros também são instáveis.

Desde menina, sentia uma forte atração por homens mais velhos. Bem mais velhos. Anos depois, surgiria a famosa novela de Gabriel Garcia Marquéz, em que um nonagenário e uma ninfeta se apaixonam mutuamente, numa linda e insólita história de amor. Essa novela me trouxe a lembrança dos bons momentos vividos com aquela jovem militante.


Obs.:
Essa nota, que vai com o número 1, transcende a estrutura deste Bóstrix e pode ser dispensada a sua leitura, sem embargo do nexo, se há um nexo, nesse romance experimental.
(Jorge Cabral de Lima Neto)