Minha mãe me dava muitos livros. Meu avô me dava muitos livros. Eu então me trancava no quarto. O meu quarto era o dos fundos, o que dava pra Pitombeira. Ali os sorvia, cada capítulo, frase por frase, com uma avidez estranha. Quase em transe! Foi por esse tempo que comecei o meu projeto. Secretamente, transformei a arquitetura do quarto. Construí portas secretas que davam pra outros mundos. Janelas que davam pra amplidão. Mamãe me via escrevendo e dizia que era melhor que eu cuidasse de estudar e parasse de copiar modas. Modas, quer dizer, modinhas, canções. Na época eram populares os jornais-de-samba, folhetos com as músicas preferidas do rádio. Não, Dona Joaninha, não eram modinhas. Não se preocupe, Seu Cabral, seu filho não é um maricas. Não eram modas, eram poemas. Os mesmos que eu um dia iria queimar em uma de minhas crises depressivas. Poemas fugazes de paixões mais fugazes ainda. Alguém me disse, foi um desperdício, a cremação. Deveria ter queimado meus desencantos por dentro. Ora, meus desencantos só findariam se eu me atirasse às chamas. Eu era covarde demais para o ato. Tremi. Não era ainda meu dia... Menino, abre esse quarto! Ó Jorge, apaga essa luz!...
►alea índex
►XXXVIII
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
XXXVI - CACOS
primeiro estilhaço:
O Bóstrix não narra fatos em uma técnica tradicional, tal como a maioria dos romancistas do século XX. Em vez disso, utiliza-se de uma linguagem que representa fragmentos de episódios, flashes. O leitor deverá reunir os mosaicos em que se apresenta a narrativa, e com eles criar uma espécie de paráfrase, em sua tela mental. Só desse modo, a linearidade e a coesão entre os capítulos(?) será resgatada. Uma colagem dos cacos de um vaso é, na verdade, a leitura de narrativas desse tipo; tentativa (inútil) de encontrar a totalidade perdida.
segundo estilhaço:
O eu-enunciador de Bóstrix Nágua evoca a intra-história de um certo Jorge Dantas Cabral de Lima Neto, poeta desempregado e livre-pensador, que relata, em manuscritos, os apontamentos de sua pífia atuação política, em meados de 1974.
Trata-se de uma tragédia urbana. Gira apenas em torno das pequenas angústias pessoais do personagem e de suas conseqüências. Jorge Dantas vai desvelando os seus temores diante da brutalidade do golpe militar, mesclados com as complicações de sua amante, a fotógrafa Marília Spencer, braço direito de uma célula subversiva, em certo arrabalde recifense.
►alea índex
►XXXVII
O Bóstrix não narra fatos em uma técnica tradicional, tal como a maioria dos romancistas do século XX. Em vez disso, utiliza-se de uma linguagem que representa fragmentos de episódios, flashes. O leitor deverá reunir os mosaicos em que se apresenta a narrativa, e com eles criar uma espécie de paráfrase, em sua tela mental. Só desse modo, a linearidade e a coesão entre os capítulos(?) será resgatada. Uma colagem dos cacos de um vaso é, na verdade, a leitura de narrativas desse tipo; tentativa (inútil) de encontrar a totalidade perdida.
segundo estilhaço:
O eu-enunciador de Bóstrix Nágua evoca a intra-história de um certo Jorge Dantas Cabral de Lima Neto, poeta desempregado e livre-pensador, que relata, em manuscritos, os apontamentos de sua pífia atuação política, em meados de 1974.
Trata-se de uma tragédia urbana. Gira apenas em torno das pequenas angústias pessoais do personagem e de suas conseqüências. Jorge Dantas vai desvelando os seus temores diante da brutalidade do golpe militar, mesclados com as complicações de sua amante, a fotógrafa Marília Spencer, braço direito de uma célula subversiva, em certo arrabalde recifense.
►alea índex
►XXXVII
XXXV- BESTA OSMANIANA
“Agora, erramos, orgulhosos e tristes, de ato vão em ato vão, modelando vasos fechados e cortando lanças circulares, não mais portadoras de aguilhão. Uma besta espantosa, de índole recurva, nasceu do cansaço universal e impera entre nós: come voraz a cauda e engole a própria garganta. Criações e atos perecem: sua respiração interna, letal.”
.............................................................................................................................................Osman Lins
Nos últimos dias, venho sentindo a sensação de estar criando um inútil objeto estético. Não há como escapar desse sintoma neurótico, sendo cidadão de um mundo niilista. Poderia alguém viajar no ventre da baleia sem ser digerido pelas secreções de suas vísceras; sem se corromper, sem sucumbir ante a volumosa força das entranhas do cetáceo?
Sempre me acordo tomado pela angústia de ser parte de uma civilização que agoniza lentamente. Sento-me, todas as manhãs, diante dessa máquina e modelo uma estranha máscara mortuária. Folheio Osman Lins e deparo-me com a imagem desse animal autofágico. Somos contemporâneos de uma sociedade entrópica. De um organismo que se despedaça. Uma máquina programada para destruir a si mesma...
Enquanto modelo essa máscara, ouço ao fundo a voz dorida de Edith Piaf. Pela janela vejo a Ilha-sem-Deus. Invade-me as narinas, a maresia do ar. Meus cinco sentidos, as portas da minha alma, repentinamente alertas para essa apreensão lírica do mundo. Um lirismo arrebatador, como um súbito acréscimo da receptividade disto que me circunda. Percebo, apavorado, uma dilatação dionisíaca do real. Eis que o grande Pã me sufoca! Sinto-me diante da perspectiva de ser devorado pelas mandíbulas dessa besta espantosa, que estertora, enquanto que me arrasta no seu ventre. Do fundo da alma me chega uma oitava de Camões:
“Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da Terra tão pequeno?”
Não sei por que insisto nesse tema. Minha psicanalista, ao ler a ELEGIA PÓS-MODERNA, poema que eu acabara de escrever, aconselhou-me para que me ocupasse com amenidades.
— Ninguém se interessará por essas coisas, Jorge, ponderava ela.
Foi o bastante: abandonei seu consultório e nunca mais voltei lá.
Conforta-me constatar, ao ler Osman e Roger Garaudy, essas duas grandes almas, que desde 1968, eles também estavam debruçados sobre o mesmo tema... Na Europa, o Green Peace mal dava os primeiros vagidos...
Estaríamos todos criando uma obra inútil e sem sentido?
Pouco me importa! Arranharei, com unhas afiadas, o ventre verde-oliva desse monstro. Creio ser esta a única atitude possível, no presente momento histórico, a quem viaja nessa bizarra embarcação.
***
(transcrevo abaixo o poema criticado pela psicanalista):
ELEGIA PÓS-MODERNA
ou Réquiem ao Futurismo
É preciso traduzir a náusea dos esgotos a céu aberto,
A lenta agonia dos canais imundos,
Escoadouros dos dejetos vis da máquina do mundo.
Quero versos oleosos e negros
Que exalem a fedentina dos peixes mortos
pelos milhões de barris de petróleo jogados ao mar.
Palavras pútridas e fétidas
Como a alma dos rios das cidades industriais.
Houve um tempo em que se cantavam odes triunfais
Fraques e cartolas saudavam fubicas velozes.
Mas os futuristas há muito mudaram-se para o campo
Apavorados com o rugido cruel dos motores da Ferrari.
Ó, adoradores do imediato,
Há motivo para exclamações eufóricas?
Hoje, um supersônico atravessa a Etiópia num segundo,
E nem por isso os negrinhos esquálidos sobrevivem à fome.
É preciso elegias e não odes.
Nossos versos não devem amar os antigos.
Façamos os versos para/odiá-los.
Na morte, para onde iremos, não há ciência ou indústria alguma.
E vos digo que Marinetti não leu uma linha sequer de Rudolf Clausius ou Sadi Carnot.
Saudava os automóveis num mundo laplaciano e
Com fontes inesgotáveis de energia.
Arre! Santa tolice!
Sobre as fábricas, sobre as gares das metrópoles modernas,
Pairava o irreversível anátema da entropia.
Era mentira a correria do progresso.
Havia um câncer na alma de aço do mundo.
Choremos, pois, à dolorosa luz das siderúrgicas,
Com seus fornos entrópicos, desagregadores e falidos,
onde arderam cadáveres proletários.
Novos profetas apregoam o fim de tudo!
(Entre eles vejo a cabeleira desgrenhada de Einstein)
Ogivas álgicas inauguram o apocalipse.
Baratas cascudas passeiam pelo parque, indiferentes.
E as criaturas perdidas na imensidão que enche a Terra
Olham o firmamento, angustiados olhos ardentes...
Tenho febre e escrevo:
Agora os poemas estão pejados de nojo.
Rói-me um cínico remorso:
Pertenço à raça abjeta de construtores dessa sociedade necrófila.
O que somos, além de um bando de aves de rapina?
Criaturas assombrosas e assombradas, digitamos programas genocidas.
Grandes máquinas soterram lagos.
Serras sórdidas ceifam florestas.
Ó civilização decadente e agonizante,
Ocaso caótico dos engenhos mórbidos,
Raça de víboras que morde a própria cauda!
Ó rodas... ó engrenagens enfraquecidas! Rangido obsoleto.
Mundo ferruginoso das máquinas esquecidas no pátio de manobras.
Espasmo retido dos maquinismos atrofiados.
Onde a fúria inconseqüente?
Tragam-me à cena os futuristas!
Velocíssimos computadores de quinta geração
Teleprocessarão dados dantescos:
Milhões de mortos na China;
Miséria nas favelas do Brasil e fome nas tribos africanas.
Distante, o brilho dos bólides sobre Guernica,
Chorem comigo lágrimas ardentes com os olhos japoneses de Hiroshima;
Assistam comigo aos mísseis pirotécnicos sobre o Vietnam.
E então eu lhes declamarei cloacas pestilentas
Rimas de vísceras de crianças mutiladas
Versos azuis de Césio 137.
No meu país os sofistas traficam leis no Planalto Central
Enquanto os filhos brincam games videotas cercados de seguranças.
É a nação dos que acordam sob as marquises e tropeçam bêbados na angústia.
Lá, os letrados insistem em dizer, em bom vernáculo:
Produzir é preciso!
Viver, não é preciso.
Por isso na há mais tempo para os poetas que se esgueiram pelos becos
Com elefantes escondidos entre os medos.
Nem se pode mais fugir pra Pérsia ou Gerais. Minas não há mais.
Mas há uma enorme pedra no caminho
E a vida humana exige a sua remoção.
Há metafísica maior do que cruzar com gente saudável e dizer bom-dia?
Há algum pecado em sonhar com uma menina a comer chocolates
E esperar que seu pai tenha um emprego para pagar a conta da Tabacaria?
É panfletário querer o poeta água limpa e comida nas mesas modestas?
Sim?!
Já não me importo!
Não há mais tempo.
A febre aumenta e ainda escrevo.
E ouço o ranger de dentes dos demônios do turno da noite.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a frieza disto.
Um frio entrópico disto totalmente imprevisível para os antigos
Que os gregos, os rabinos e Constantino
Morram asfixiados com o cheiro surpreendente das tintas e solventes
Da oficina de lanternagem!
E que os pequenos anjos do aroma sintético
Do pintor neobarroco Eugênio Paxelly, assaltem os passantes,
Ou sujem pára-brisas por moedas irritadas.
Gordas matronas empurram carrinhos repletos do inútil,
no Shoping Center Augusto Comte;
Aristóteles, zangado, faz careta ao fim do século.
Deliro, febril e convulsivo.
Digito, a custo, stop no remoto.
O vídeo perde o brilho estúpido e eu adormeço enquanto
Espero a morte lenta e contemporânea dos morféticos
E os poemas escorrem do meu corpo, feridas purulentas e escuras,
Como os rios sem vida que cruzam a minha terra natal...
Jorge Dantas
maio/72
►alea índex
►XXXVI
XXXIV - MORELLI
p. 486 de Rayuela

— Influências morellianas, meu rapaz?
— Sim, e de tudo o que li. Alguns, como Morelli, li mesmo no original. Mas, creia-me, Mestre, não busco, como ele aconselha, um drama sem édipo, um drama impessoal. Muito pelo contrário. Não me atrevo a almejar a grandeza desse genial Morelli. Na verdade, o recurso de que vou me utilizar, nele inspirado, é aquele que chamei de ‘ornato circular’, ou seja, um desenho enarrativo não-linear.
— ???
— Já me explico: preferi plagiar a sequência morelliana de capítulos, mais lúdica, para não repetir a enfadonha numeração seqüencial e sucessiva de capítulos, comumente usada pelos romancistas. Nisso, pelo menos, serei parecido com aquele mestre da literatura universal.
***
— Busco ainda “compreender por que razão o princípio da indeterminação era tão importante na literatura, por que motivos Morelli, sobre quem eles tanto falavam, a quem tanto admiravam, pretendia fazer do seu livro uma bola de cristal, no qual o micro e o macrocosmo se uniam numa visão aniquilante.”
Seria ele um precursor do Esferismo?
► XXXV
► alea índex
— Sim, e de tudo o que li. Alguns, como Morelli, li mesmo no original. Mas, creia-me, Mestre, não busco, como ele aconselha, um drama sem édipo, um drama impessoal. Muito pelo contrário. Não me atrevo a almejar a grandeza desse genial Morelli. Na verdade, o recurso de que vou me utilizar, nele inspirado, é aquele que chamei de ‘ornato circular’, ou seja, um desenho enarrativo não-linear.
— ???
— Já me explico: preferi plagiar a sequência morelliana de capítulos, mais lúdica, para não repetir a enfadonha numeração seqüencial e sucessiva de capítulos, comumente usada pelos romancistas. Nisso, pelo menos, serei parecido com aquele mestre da literatura universal.
***
— Busco ainda “compreender por que razão o princípio da indeterminação era tão importante na literatura, por que motivos Morelli, sobre quem eles tanto falavam, a quem tanto admiravam, pretendia fazer do seu livro uma bola de cristal, no qual o micro e o macrocosmo se uniam numa visão aniquilante.”
Seria ele um precursor do Esferismo?
► XXXV
► alea índex
XXXIII - MAGRIÇO
Uma sugestão divina (quase sempre, esquecida pelos cristãos):
"quando orares, entra no teu aposento e ora em oculto,
pois teu Deus, que vê em oculto, te responderá..."
..................................(Evangelho de Mateus, o publicano)
DEITADO na calçada, sob a marquise do Grande Banco, geme o pivete, quase inconsciente. Geme e balbucia frases desconexas:
Dum gáa laicote noberrete van...áli kam menesse! Áli...
Os passantes olham rapidamente, acostumados à miséria nas ruas da Cidade. Na praça, em frente ao Banco Lar Brasileiro (sugestivo, o nome), megafones histéricos anunciam o reino de Deus. Fiéis entoam cânticos entrecortados por ovações e aleluias. Uns emocionam-se com as palavras de um exaltado orador e sussurram glossolalias. Os mais jovens dirigem-se até o pivete que se contorce na calçada.
Dum gáa laicote noberrete... áli kam m...
É a língua dos anjos, grita surpreso um dos jovens crentes.
O Pastor, comovido, aproxima-se dos jovens fiéis.
É o sinal dos tempos. O sinal do profeta Joel. Cristo breve vem!
A platéia de curiosos e protestantes cerca o corpo do menino magricela.
Surge, então, espremendo-se no meio da turba, um preto velho, barba branca, carapinha. Pede licença aos populares, o ancião, pele negra avermelhada, jeito manso de avatar indiano, e levanta o pirralho pelos braços franzinos.
Vambora, Magriço, alevante... Cadê teu irmão? Alevanta!
E, dirigindo um olhar de olhos baços, aos curiosos:
Num é nada não, gente! Ele é neto da Nega Ôiazul, minha vizinha lá da Ilha-sem-Deus. Né nada não. Isso foi cola. Cola de sapateiro e fome...
Diante do Grande Banco do Lar Brasileiro, a praça volta à mesma liturgia da vida normal. Os passantes voltam a olhar tudo rapidamente, acostumados a cruzar com a mesma miséria nossa de todos os dias. Os fiéis retornam aos mesmos megafones estridentes, anunciando o mesmo reino de Deus.
Arrastando seus andrajos, afastam-se, resignados, o velho e o menino, na direção da Ilha miserável...
Pelos becos e vielas da Cidade, ecoava a milenar indagação de um fariseu:
"Senhor, quem é o meu próximo?"
E o pastor, grave e solene, em frente ao Grande Banco, prega, ao megafone, a mesma, e tantas vezes repetida, parábola do anônimo samaritano.
***
Trancrevo aqui uma sofrida epifania do JORGE DANTAS:
O NEGRINHO E A FÉ NO VAZIO
O negrinho favelado, magro e feio orava todo dia,
Pedia queijo e pão
Boneca pra irmã
Sapatos e um pião...
Passava o dia perambulando pela cidade,
Bigu nos ônibus, pela traseira;
Catando lixo
Cheirando cola
Batendo bola, carteiras e relógios;
Banhando-se nas fontes
Salto solto das pontes, fugindo dos meganhas.
Mas, á noite, no barraco,
Daquela Ilha-sem-fé-e-sem-arrimo,
Rezava com insistência,
Pedia a Deus clemência:
Decerto ia mudar, crescer e estudar.
Dar duro no batente,
Morar numa casa rica,
Ter uma mulher bonita e um cobertor de lã.
Que Deus não esquecesse a boneca da irmã...
Até que um dia, o negrinho foi flagrado
Fumando a erva numa esquina da favela
E angustiado, perguntava ao soldado:
Se eu rezo tanto, por que não sou atendido?
Menino besta, porque Deus nunca existiu.
Quando se reza, a gente fala com o vazio.
E o negrinho, magro, feio e favelado, nunca mais rezou.
Ficou mais magro, feio, favelado e triste.
E, dentro do peitinho desolado,
Um deus distante, surdo e mudo, inacessível,
A quem culpava por sua vida de excluído.
Mas, quando adormecia no barraco, ébrio de cola, fome e frio,
Ainda sonhava haver no céu um estranho deus:
O Vazio...
► XXXIV
►alea índex
XVI◄ (link sugerido pelo autor)
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
XXXII – BÓSTRIX
Recife, 31 de março de 1974,
dia de poucas luzes.
(Ano 10, depois do Golpe Militar)
Hoje amanheço com pressentimentos por todo o corpo. Talvez tenha dormido em má posição. Preocupa-me, esse corpo frágil em que habito. Destituído das fortalezas edênicas, mortal, quem me garante o que me vai suceder no próximo instante?
Os filhos por criar, a obra inconclusa...
Devo tomar algumas providências:
os filhos, recomendo-os aos familiares que sobreviverem ao meu desaparecimento; a obra inacabada, ao meu mestre esferista, Jöhan Linz, a quem faço depositário desses apontamentos sem costura, ou costurados pelo avesso de mim.
Deixarei, do tecido das minhas idéias, uma possível urdidura, que não pretendo que seja o único caminho de leitura; deve-se buscar o bordado ideal, o nexo, (se há um) entre os incidentes de texto.
Essa trama movediça é como a vida: tessitura de armadilhas. Cada incidente traz a certeza e o sobressalto.
No Bóstrix, isto é, no bastidor encaracolado abaixo, está sugerida a ordem possível desses apontamentos (capítulos?), que pode ou não ser seguida.
Inicia-se por este XXXII e segue-se o ornato circular.
Uma sinalética de pé-de-página ►(ir para),◄(voltar para) obedecerá a seqüência sugerida no desenho abaixo.
(DIGITALIZAR DESENHO DO BÓSTRIX)
.........................(1º esboço do bastidor da urdidura possível).....................
XXXI - M'BOI
"Um monstro flui nesse poema
feito de úmido sal-gema.
.............................................
Se vós não tendes sal-gema,
não entreis nesse poema. "
Jorge de Lima

verde lama, sombrio, profundo verde,
pântano insalubre, salobro, alagado, movediço.
undialvas palavras acopladas tremeluzem à penumbra da maré.
boiúno, pardacento, quase extinto, o derradeiro...
um minotauro flutua, procurando por um.
uro d’água, miúra doméstico, búfalo aquático,
pântano insalubre, salobro, alagado, movediço.
undialvas palavras acopladas tremeluzem à penumbra da maré.
boiúno, pardacento, quase extinto, o derradeiro...
um minotauro flutua, procurando por um.
uro d’água, miúra doméstico, búfalo aquático,
precursor anfíbio da vaca sagrada.
bovídeo: viu-se ou não se viu?
viu-se a miragem tremeluzindo sobre a maré sombria.
undialvas palavras acopladas...
osmanjoyceróseoarianas...
mbóiuna, mba’êta’ta
ulyssesnãomoranamaré
asparávolasevolam-senahistória,
masvivempelaintra-história.
viu-se a miragem tremeluzindo sobre a maré sombria.
undialvas palavras acopladas...
osmanjoyceróseoarianas...
mbóiuna, mba’êta’ta
ulyssesnãomoranamaré
asparávolasevolam-senahistória,
masvivempelaintra-história.
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