quinta-feira, 5 de agosto de 2010

LXIV – INTRA-HISTÓRICOS (1)

ou primeira meditação sobre a renitência dos despossuídos




PEDRO ANTONIO é um desses intra-históricos. Vive mergulhado em seu cotidiano. Passa todos os dias, cedo de manhã, em minha rua, rotina invariável, ao sol ou à chuva, arrastando a sua carroça-de-mão. De manhã, passa vazia, leve, rápida. À tardinha, lá vem ele, vagaroso, os fardos de papelão mal-arrumados, ferro-velho, latinhas espragatadas. Passadas lentas e olhos baixos, como a procurar algo no chão. Todo dia passa aqui no meu portão. Todo dia nos saudamos com as mesmas palavras, quase mecanicamente. Ouço o ranger das rodas nos eixos da carroça. Observo as rugas que já tomam seu rosto envelhecido.

Anoto, todo dia, essas coisas em um caderno. Há muitos anos venho fazendo isso. Estamos enredados na mesma teia. Na mesma tessitura. Ele, recolhendo os seus papéis do lixo. Eu, rabiscando essas notas que um dia vão ser lixo também. Somos parte de um círculo, de um circo, de um misterioso jogo de espelhos circulares. Um recolhe lixo, outro, apontamentos. Fluxo e refluxo da mesma maré de eventos.




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IX◄


▲ Epilogo?

LXIII - ZÉ-NINGUÉM

(...) Atentem para essas expressões:

cidadãos comuns, massa ignara, multidão anônima, populares, massa de manobra, e outras correlatas.

Falácias, bazófias, é o que são.
Arrancam do povo, do comum dos mortais, o direito à sua originalidade, à sua autenticidade enquanto indivíduos, e os jogam na vala comum dos zés-ninguém. Isso já é, em si, uma monstruosa manipulação urdida por certos ideólogos da cultura dominante, dos condutores das mentes videotas, dos sofistas da post-modernidade.

Infelizmente o povo não ouviu Nietzsche, quando anunciava a chegada de um certo monstro das botas envernizadas. Uns interpretam esse monstro nietzcheano como sendo o Estado, esse ente abstrato que se imiscui em nossas vidas, nos invade e nos priva de qualquer possibilidade de liberdade.
Contudo, esse assombroso ser é bem mais sutil e peçonhento. Chama-se Kitsch:
Veículo ideal da ideologia dominante;
Enformador de gostos e tendências caricatas;
Massificador dos subprodutos de culturas alheias;

Considero o Kitsch, instrumento ignóbil do imperialismo ianque, como o mais terrível pulverizador da reserva cultural e da espontaneidade dos homens genuínos que habitam em todas as partes desse lado ocidental de nosso planeta azul.
Acautelai-vos... eis que ele ronda a nossa maneira de ver o mundo, a nossa arte, a nossa vida...(...)

.......................(fragmento de discurso do Mestre Linz no Clube Franz Post)



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LXII - KOIMITERIUM







Apesar da sombra benfazeja desses oitizeiros, jambeiros, mangueiras; arvoredo secular de aparência tão grave e imponente quanto a dessas edificações neo-clássicas onde abunda o mármore de Carrara; apesar disso não gosto, nunca gostei, de entrar aqui. Desprezo esses funcionários municipais, cabotinos, com ar fingidamente respeitoso, reverência mal-disfarçada, hálito de aguardente. Se eu pudesse nunca entraria nesse lugar. Tudo aqui me deprime. As flores ficam tristonhas nesses quartinhos contíguos e mal-asseados. Desolados e desoladores os cortejos atravessam o pátio arborizado. Os mais velhos persignam-se defronte da capela de Santo Amaro das Salinas. Um dos cortejos caminha em meu encalço, mas sem muita pressa, andar pausado e grave no átrio silente. O silêncio amplifica cada ruído. Piam bem-te-vis nas copas dos oitizeiros. Ouve-se um choro de mulher carpindo. Jogam-se flores sobre a terra revolvida de uma escavação recente. O que irão semear nessa abertura? Meu pai pede a pá ao funcionário de macacão azul. As pessoas começam a atirar, solenemente, uma após outra, várias pás de terra fértil sobre os cravos quase murchos. Estranha semeadura! Ouço uma voz familiar lendo um de meus mais tristes poemas... afasto-me compungido por entre as árvores frondosas. Tento conter as lágrimas quentes. Lágrimas fundas e purificadoras.
Do lado de fora desses átrios a cidade ruge. Rumores da vida lá fora me chegam da praça que há ao lado. Taxistas e floristas conversam sobre o tempo. Os ônibus, superlotadas esperanças, atravessam ruidosos a avenida da Saudade. Hoje é terça-feira nessa cidade das pedras que seguram o mar. Meus amigos e parentes mais humildes voltam pra casa a pé. Meu nome está nos corações saudosos.
Quem diria? Domingo ele esteve comigo no ateliê. Eu senti que ele não estava bem. Subiu as escadas mais devagar do que sempre. Dirigiu-se ao sótão, cabisbaixo. Um silêncio de impressionar. Pouco depois desceu, ainda calado. Pediu-me um café. Falou-me de uns originais recusados por uma editora. Estava meio ressentido com um certo beletrista. Despediu-se de forma estranha. Levava consigo um saco plástico cheio de papéis, que imaginei serem os seus manuscritos. Vi, de relance, meio escondida, uma garrafa de álcool.

-- Pra que esse álcool, Jorge? Não me vá fazer nenhuma loucura.

Não respondeu. Desceu lentamente as escadas e seguiu na direção do mercado da Boa-vista. Depois disso não mais o vi.

...A notícia chegou-me através de uma tia, que mora aqui perto, nos Coelhos.






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LXI - DISCURSO FLUVIAL








A reiteração dos temas ao fluir desta narrativa espiralada não passa de um mero reflexo do que há em derredor:

a vida cíclica dos homens do mangue,
feito as enchentes e as vazantes
de um mar que some,
de um mar que avança.

Não há nisso nenhum recurso estilístico, e sim, o ritmo ancestral das marés, esse relógio lunar que rege a vida nessa cidade anfíbia.





► LI


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LX - D’ANTAS






TÁBUA DE MARÉS
Baixa-mar #08h36 - #21h00





A descida dos tupis do planalto continental no rumo do Atlântico foi uma fatalidade histórica pré-cabralina, que preparou o ambiente para as entradas no sertão pelos aventureiros brancos, desbravadores do oceano.
A expulsão, feita pelo povo tapir, dos tapuias do litoral, significa bem, na história da América, a proclamação de direito das raças e a negação de todos os preconceitos.
Embora viessem os guerreiros do Oeste, dizendo "ya so Pindorama koti, itamarana po anhatim, yara rama recê", na realidade não desceram com a sua Anta a fim de absorver a gente branca e se fixarem objetivamente na terra. Onde estão os rastros dos velhos conquistadores?.
Os tupis desceram para serem absorvidos. Para se diluírem no sangue da gente nova. Para viver subjetivamente e transformar numa prodigiosa força a bondade do brasileiro e o seu grande sentimento de humanidade. Seu totem não é carnívoro: Anta. É este um animal que abre caminhos, e aí parece estar indicada a predestinação da gente tupi.

............................................................................................................................................(Manifesto da Escola da Anta)







DANTAS, esse é o nome da família de minha mãe. Herança longínqua dos paraibanos, numa época em que tudo por aqui era ainda província de Pernambuco. Os tupis, dizia meu avô materno, consideravam muito as capivaras, também chamadas de anta ou tapir. E esse rio era o habitat natural de centenas, milhares, delas. Daí o nome, Ribeira das Capivaras: Capibaribe.
Usava apenas o CABRAL, sobrenome paterno. A razão disso nunca me ocorrera antes. Mas, ao ler o Manifesto da Escola das Antas, compreendi o que se ocultava sob esse uso inconsciente. É que a família Dantas, mais bronzeada e morena, seria absorvida, como de fato aconteceu, pela gente branca, dos Cabral de Lima. Sou o subproduto dessa fusão: um sarará.

Às vezes, estou mais cabralino do que das antas. E, por isso, vejo o rio disforme, cão sem plumas, com viu, bem ou mal, o Cabral mais famoso: o poeta. Não me refiro ao Cabral, invasor de Pindorama, dito descobridor. Aquele encontrou águas limpas, potáveis. João, o poeta, não beberia dessa água.
Também não bebo dessa fonte. Não sou nhengaçu. Tampouco antropófago. Mas, tenho sim, uma porção d’antas, que se deixa absorver pelo opressor, para sobreviver, subvertendo, subliminarmente, a lei e a ordem.
Assim, miscigenada, sincrética, parece ser apolítica, essa minha porção d’antas. Entanto, vai destilando o seu veneno intra-histórico nas veias do conquistador. Submete-se, vagarosamente, ao vencido o vencedor. É que a intra-história, renitente, vence pelo cansaço. Transforma, primeiramente, os costumes, invade a culinária, as crenças e, mais tarde, subverte a Língua. Esse é o aperto final da boiúna intra-histórica. Primeiro mói, tritura, depois engole o idioma do opressor. Fingindo submissão, solapa os alicerces da cultura alienígena.

***

(morreu galego?)

***

"Cadê o galego que assi ledo no paaço,
pedio vinho e fruita e lançouse a dançar?
"

***


Marília dizia-me, que, ao invés disso, o oprimido introjeta, patologicamente, o opressor. Aplaude, hipnotizado, a tirania do algoz. Por isso alguns retóricos ufanistas chamavam os portugueses, cinicamente, de “os desbravadores do oceano”.

"Escravocratas, genocidas, invasores cruéis: talvez essas palavras sejam mais apropriadas, dizia-me ela, indignada.

Diante dessa mulher ensolarada, ativa e militante, eu me sentia acuado, feito uma anta diante de medonha e parda onça suassuna. Nesses instantes afloravam os Dantas, os abridores de caminho, os resignados, que em mim habitam há séculos, intra-historicamente.

Quando faço o mea culpa pelo que aconteceu na DOPS, essa reflexão sobre meu totem não-carnívoro, a Anta, ajuda-me a diminuir o meu desassossego. (Ou alimenta o meu cínico remorso?). Publiquei, naquela ocasião, a minha abjeta declaração de não-comunista, safando-me da polícia política. Não me safei, porém, da minha consciência.

Contudo, de que adianta essa fingida paz exterior, se para chegar a ela, recorro a racionalizações tão metafóricas quanto inúteis: capivaras, antas, tapires? Agrada-me, apesar dos pesares, exprimir essa verdade. Nunca fui mesmo comunista. Nem qualquer outra coisa do tipo. Sempre abominei os ismos, embora me interessasse pelo anarquismo. Um anarquismo moderado, bem sei: não-violência, cooperativismo, auto-gestão. Jamais adotaria a fúria anarquista dos estudantes de Paris, em 1968. Sou pacífico, cordato, conciliador. Uma Anta!

O que Marília, mulher valente e militante, via tanto em mim, pra tanto bem-querer?




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LIX - BATE-ESTACAS







...Faz-se um silencio sepucral. Mestre Linz abre a agenda em sua primeira página. Todos entreolham-se curiosos e reverentes. A sombra do Mestre projeta-se, gigantesca, na cumeeira. Ouço um dobrar de sinos. Há uma igreja aqui perto? Desabam sobre mim as palavras do Mestre, marteladas, as palavras, retumbam em uma bigorna. Caem pesadas, as palavras. Pancadas de aldrava em nossos tímpanos. A dútil voz do Mestre rasga uma trilha no silêncio. Ecoam as palavras, minhas palavras, dentro de minhas recordações. Façam-no parar! Não me façam reviver essas dores. Estão surdos? Não quero ouvir isso! Nesse instante, ouve-se lá fora um bate-estacas. Escuto, aliviado, o bate-estacas. Breve erguerão um novo prédio no terreno baldio defronte à casa de meus pais. Ouço o ruído das máquinas. Ruídos modernos da vida. Eh, mundo lá fora cheio de vida! Vozes álacres crianças jogando bola, buzinas, o pio das aves! Salve os ruídos do mundo! Mundo and roll! Pedras rolando! Rumores, canos-de-escape, locomotivas, pedreiras, soam sirenes, cargueiros, mundo lá fora rugindo, ciciando, estrugindo, ferreando! Invadam-me sons do mundo! O bate-estacas enterra estacas em minha alma. Sou um terreno baldio de mim mesmo em frente à casa paterna. Ritmado, o bate-estacas bate estacas. Ritmada, a voz do Mestre recitando. Por favor, parem com isso. Por favor, ninguém me ouve?...




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► LX

LVIII - SARAPATEL






Memorandum


De: Aprendiz

Para: Mestre


Mestre, estou escrevendo uma coisa. Não sei em que gênero essa coisa se encaixa, nem preciso saber. O que necessito mesmo é escrever. Um romance, um memorial, um mosaico, um calidoscópio. Algo que iniciei depois de ler uma notícia, anos atrás, num exemplar de revista de ciência popular. Falava de metatextos. Algo que surgiria com o advento dos comentários à Torah, coisa que eu já procurava há muito tempo e que a descoberta de Rayuela veio definitivamente resolver. Estou montando um calidoscópio textual. Um mosaico de virtualidades. Um imenso mural, com sons e imagens, feitas com palavras. Um caldeirão, uma feijoada de textos polifônicos, sinfônicos, harmônicos... essa coisa que apelidei de Bóstrix N’água ou Apontamentos Esféricos. Isso que lês agora, esse texto esquisito que tens debaixo dos olhos. Isso. O que vem a ser isso, Mestre? Um sarapatel?






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►LXIII

LVII – DEUS




Aguardo uma baiteira que me levará ao outro lado da maré. Iremos à Ilha-sem-Deus. Sem Deus parece ser toda essa região:

“Barracos,
aos cacos,
fincados na lama do mangue,
são farrapos de sonho
molhados na água insalubre...”

A lama preta tinge os homens, os olhos dos homens, a alma dos homens sem Deus.
Deus?
Certa feita, um velho burgomestre, influenciado pelo Clero, tentou mudar o nome da ilha.

Batizaram-na Ilha-de-Deus.


Deus?
Corre um menino esquelético pela lama. Deus? Seus ossos arfam de fome.

Deus?
Não sei se pela contradição estampada no extremo desamparo dos habitantes da Ilha, ou se devido à morosidade da tramitação do processo de mudança do nome na edilidade, até o dia de hoje ela ainda continua sendo chamada de Ilha-sem-Deus.

***


Segundo a Proposição XIV, da Ética Demonstrada à Maneira dos Geômetras, de Benedictus Spinoza,

“Afora Deus, não pode ser concebida nenhuma substância.”

Enquanto polia pacientemente as lentes de uma luneta, o nosso pensador excomungado ia abrindo os nossos olhos:

“Tudo o que existe, existe em Deus, e sem Deus nada pode existir.”
(Proposição XV)

Através dessa luneta translúcida, Spinoza revela seu monismo totalizador. Nele, tudo é Deus e Deus é tudo.


Acorre-me logo à mente a idéia (um tanto ou quanto, capciosa, reconheço) da presença de Deus nos excrementos, no monturo, na carniça: tudo, tudinho, é Deus! É impossível para o Absoluto criar algo fora de si. Nada pode viver ou existir, autonomamente, sem Deus ou fora Dele. Existir fora de Deus é a absurda negação dos atributos divinos da onipotência e da onipresença.


Portanto, toda miséria, toda dor, toda maldade é Deus. Por outro lado, é Deus também todo prazer, toda alegria e toda bondade.


Contudo, meu bom Spinoza, uso, nos olhos da alma, uma lente distorcida, diferente da tua lente ética e geométrica. E ouso afirmar, diante de tanto abandono e miséria nessa ilha flagelada, fincada no manguezal do Rio Pina, que há um lugar fora Dele:


UMA ILHA de purgação para prometeus famintos;

lugar de expiação para os seres que ousam existir fora da substância divina.




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LVI - CENTOPÉIA





...Com os remos levantados, a baiteira segue mansamente a correnteza do rio. Daqui, já se avistam, enfileirados à margem, os primeiros casebres da Ilha.

São pedrinhas de um dominó desencontrado que se escoram umas nas outras, buscando um equilíbrio sem prumo e sem esquadro.

O casario foi sendo construído, paulatinamente, ao longo de muitos anos, com retraços de madeira, zinco e plástico, maquete da universal e distorcida arquitetura dos guetos miseráveis. Um improvisado ancoradouro, erguido sobre caibros raquíticos, patas de uma estranha centopéia, avança pela lama da maré.

Esquivando-se por entre as patas enlameadas deste inseto surreal, meninos esquálidos enterram suas mãozinhas, pele e osso, na terra mole e escura. Buscam mariscos, pequenos crustáceos, caranguejos. A vida resiste em seu ciclo renitente! Por sobre as suas cabeças passa, num vôo rasante, um bando de pardais. Aves, meninos e crustáceos lutam pela sobrevivência em um mesmo habitat.

***

A voz do barqueiro vem me tirar dessas reflexões:

"Esse é um trecho muito raso e acidentado. A fábrica de rum lançou essas pedras nas margens. Os donos iriam construir uma espécie de dique. A fábrica foi fechada e as pedras ficaram assim, com a metade submersa. Ali, viram? Só podemos nos aproximar na maré alta e, mesmo assim, dando várias voltas, até encontramos o ponto ideal para a atracação. Barcos maiores nem se arriscam a chegar até a Ilha. Só se chega até lá nessas pequenas baiteiras."

***

Dando várias voltas, disse-nos o experiente barqueiro.
Essa singular forma de nos aproximarmos da Ilha, a paciência desses volteios, me trouxe à mente o que dizia Ortega y Gasset, em suas famosas Meditações do Quixote. Discorria ele sobre a melhor maneira de abordarmos, com a necessária (e pouco usual) profundidade, a obra prima de Cervantes:

“Essa obra genial tem que ser tomada como Jericó. Em amplos rodeios, nossos pensamentos e nossas emoções devem estreitá-la lentamente, sonorizando trombetas ideais.”

Também abordaremos essa Ilha-sem-Deus, voluteando sem pressa, sem urgência, em amplos círculos de atenção, traçados pelo pensamento. Não é essa, porventura, uma ilha labiríntica, nascida da cavilosa imaginação de algum engenhoso arquiteto, como aqueloutra, a mítica ilha de Teseu. Não é também cria dos sonhos dos homens, sendo mera efabulação?

***

De pé sobre as águas, ergo uma trombeta imaginária. O barqueiro deixa, sabiamente, que a correnteza do rio Pina conduza a nossa frágil embarcação...

Volvamos, pois, nossa atenção para o curso das águas. Delas, é algo para todos corrente, há de nascer essa história...





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◄XVII

LV – POMBA GIRANDO







Naquela noite, descobri, surpreso, tua pluralidade. Havíamos bebido muito. Era uma apresentação folclórica no Pátio de São Pedro. Danças africanas, afoxés, maracatus, coisas assim... Tu estavas encantada com aquele baticum. De repente a tua face, habitualmente serena, sofre uma metamorfose. Tua tez morena fica avermelhada. Teu cabelo já negro torna-se mais negro do que a noite. Da ponta de tuas orelhas surgiram duas enormes argolas zíngaras. Brilhavas, vestida a ouro e ébano.

Então começaste a gargalhar estranhamente. Dançavas entre as mesas do pátio. Dança flamenca, cigana. Uma das mãos segurava a barra da saia; a outra, erguida, balançava um imaginário pandeiro. Dançavas e rias. Rias e dançavas. Perplexo, vi quando derramaste cerveja sobre um dos fregueses do bar. Tudo estranho, muito estranho para uma mulher centrada e realista. Já não eras mais tu mesma. Alguém agia em ti. Uma outra personagem te possuía. Outra mulher, mais vulgar e debochada, girava com teu corpo.

Naquela noite descobri a outra, a terceira. Não te bastavam duas vidas: Marília/Mariana? Havia em ti uma lúbrica cigana. Aquele teu materialismo dialético sucumbia perante os ancestrais de África. Freud já não te explica, Mulher. Talvez Jung explicasse melhor essa tua surpreendente mitopoese...




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LII ◄

LIV - CÍRIOS






Os círios à minha dextra quase se apagam. Alguém, sacando um isqueiro, acendeu cada um, reverentemente. A pequenina chama tremeluziu, frágil, fugaz. Nós todos naquela saleta tremeluzíamos, frágeis, fugazes. Meu pai aproximou-se de mim, fugaz e frágil. Seu hálito familiar: já tomou uma! Beijou-me a face, coisa rara em seu Cabral. Não era dado a carinhos comigo. Não que não me estimasse. Fazia-me notar seu amor de outras maneiras. Era um abraço, um tapinha nas costas. Mas, beijinhos só nas meninas, Elaine e Dinéia. Eu era o machinho da casa. Ah, seu Cabral, por que não me beijou em outro momento? Mamãe se aproxima de nós com o meu Mestre do lado. Meu Deus, vão ler mesmo a agenda. Pra que reler esses poemas?

“Incumbimos dessa leitura o Doutor Jöhan Linz, pela proximidade que tinha com o nosso Jorge...”





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XXX ◄

LIII - VÉUS E NUDEZ






Mamãe achou a agenda verde. Meu Deus! Não estava com ela! Devia tê-la queimado. Não gostaria que todos aqui soubessem de seu conteúdo. Pra que recordar essas bobagens? Poemas, velhas anotações para um romance esferista, planos de obras nunca acabadas, minha guerra sem testemunhas, minhas coisas: minha nudez. Essa agenda realmente me desnuda. Um poeta se veste de palavras para ficar mais nu, dizia o Mestre. E tinha toda a razão. Véus ou nudez, a Palavra? indagava-me, certo dia, o poeta Getsêmane Barros, entre cervejas, no bar da Algaroba. Hoje, impotente diante dessa agenda em mãos alheias, chego à conclusão que procurávamos. Véus e nudez, a Palavra, Getsêmane, véus e nudez...


As alunas do Mestre Linz chegaram, trazendo rosas amarelas. Dizem que simboliza a amizade. Os artistas-plásticos gostam desses detalhes. Simpáticas e esteticamente perfeitas essas rosas, formando uma circunferência amarelo-ouro, solar. Circunferências lembram-me sempre as nossas fecundas discussões sobre o Esferismo. Deliciosas conversas etílicas nas tardes da Boa-vista. Sempre achei o Esferismo muito parecido com o Perspectivismo de Ortega y Gasset. Mas achava indelicado sugerir isso ao nosso generoso e sexagenário Mestre Jöhan Linz. Bons tempos...mas o grupo Esferista se dispersou. O Getsêmane depois que mudou pro Ibura, anda meio sumido. O Zenóbio e seus Fractais, quem viu? O Serpa Lopes, figura esguia e quixotesca, já o vi pelos cantos da casa, Poliana chorosa. Concha, sempre calada. As colegas da Faculdade também chegam, trazendo rosas nas mãos. Lembram-me os funerais do Claudionor: dei uma rosa vermelha a cada uma delas. As rosas ficaram sobre seu túmulo, inúteis. Mas que assunto triste é esse agora? E por que vocês estão me olhando desse jeito?





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XXXI ◄

LII - CICATRIZES






Alguém sugere a leitura de algum de meus poemas. Mas, os poemas...Eu os queimei. Vocês não sabiam? Perguntem ao Mestre. Foi anteontem. Estava em uma crise depressiva.. Pensando mesmo em desistir disso tudo. Então fiz uma fogueira lá atrás do Mercado da Boa-vista. Não foi, Mestre? Talvez tenha ficado algum dentro da velha agenda verde. Creio que essa agenda perdeu-se. Ou ficou com ela? Tive vontade de queimá-la, mas não a achei. Uma agenda pode ser algo cortante. Reabre cicatrizes. Abrir uma agenda é desejar viver o que já passou. E aquela era uma agenda feita de sonhos, doridos sonhos. Devia mesmo era ter queimado essas lembranças...






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► LIV

LI - CODINOMES







“(...) uma só saliva e um só sabor de fruta madura,
e eu te sinto tremular contra mim
como uma lua na água.”
(J. Cortázar, in Rayuela)



...E, como toda circunstância se nomeia, ela trazia um nome entre seus nomes: Mariana.
Não sei se era o de batismo, pois lhe inverteram o nome e com ele, a ordem da vida.

Verdadeiramente, ela e seus nomes se misturariam com as cartas zíngaras de um baralho. E, em nossas vidas, esses nomes, estilhaços de espelho, ocultariam fantasmas. Reis, valetes e coringas estavam acoitados em um coração cigano que batia falso entre seus nomes.

Veio com um cortejo de espectros que encontraria o meu. Sem identidade, mas viva em minhas entranhas de poeta, ela se nomeou. E, nesses cacos espelhados que uns chamam versos, ela se construiu.

***

Após penetrá-la, entre doce e prazeroso, ela me fez a clássica e, de certo modo, desusada, indagação sacerdotal:

– O Sr. Jorge Dantas Cabral de Lima aceita a senhorita Mariana, Manaíra, Amirana, Maraína, e outros nomes e faces em cascata... também chamada na clandestinidade por Marília Spencer, como sua legítima amante?

– Sim, respondeu o cavalheiro, ainda em ereção dentro de sua fenda, lúbrica e acolhedora.


Aí começariam meus equívocos. Paixão e catarata cegam se não cuidadas a tempo, diria minha avó...



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►LV

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

L – TARRAFA


















Horológio
Tábua de Marés
Preamar # 14h48



RECOSTADO na mureta da Ponte Velha, estático, os olhos vivos fitando a flor d’água. Lá embaixo, o rio desliza: a água serena, a maré cheia.

Cingindo o seu antebraço, amarrada entre a palma da mão esquerda e o cotovelo, a corda central que sustém a rede circular. A armadilha, coniforme, penduleia, rente à sua perna. A água escorre pelas pequenas chumbeiras.

Atento, imóvel, arma o bote, recostado à ponte. A brisa sopra a maresia e ele espera, instintivo como uma fera. De repente, zás!

Arremessa a rede, flor aberta sobre a superfície das águas. A corda, áspide longilínea, escapa-lhe das mãos, serpeando no ar. A malha, enfim explode n’água. E submerge, rapidamente, cilada repentina. Some nas águas do rio, a flor, bela e maldita, a flor, bela e letal... Submerge, sob o peso dos grãos de chumbo na tralha inferior.






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XLVII◄

XLIX - LENTES





(...) palpar com a pupila
a pele das coisas (...)
Ortega y Gasset




...Pretendo também alargar os limites do visível. Não é vanguardismo. É necessidade. Preciso, desesperadamente, chegar ao mundo. E, chegar ao mundo, disse um pensador moderno, é tomar a Palavra, transfigurar a experiência em um universo do Discurso.

...Por isso busco imagens com você, Marília. Não procuro a Verdade, nem a Mentira. Não sou filósofo. Sou poeta. Busco, contigo, a superabundância de realidade. Se a meio caminho encontro abelhas, flores e carneiros, se me deparo com um maravilhoso pássaro de seis asas, pouco importa! Contigo, Marília, profanarei o sagrado e consagrarei o profano. Contigo emergirei do mar, peixe-de-asas, num salto inesperado e cheio de riscos. Saltarei na vida! Colherei tuas surpresas com arrebatamento. Furarão meus olhos, os albatrozes, com seus bicos vorazes? Enxergarei então pela lente de tua câmara fotográfica. E não recuarei. Recuar é tornar ao oceano de mediocridade.


...Então, repito, não quero explicar o mundo. Quero confundi-lo. Trago em meus olhos fogo e dissensão. Ouso imitar o Mestre e atritar as palavras até fazer saltar delas chispas de fogo, que incendeiem as consciências. Se os tentáculos da aranha tentam me sufocar, “já não me calo, mariodeandrademente, esperneio, grito. Tanto ridicularizariam meu silêncio quanto esta grita.” Jorra, genesíaco, da minha garganta, o sangue de Abel. Vejo o casebre soterrado. A saga dos bombeiros. A morte, Marília, nos chega tão gelada nesses videotapes. Escondem-se os culpados, nessas reportagens.

Apontem-se os culpados!

Somos nós, Jorge.

Nós?

Sim. Nós e a nossa indiferença. Impassivelmente, tropeçamos em cadáveres nas calçadas. Estamos enredados no tecido dessa aranha: meninos-de-rua, prostitutas, aposentados, favelados, mendigos, nanicos vindos do sertão. Todos ilhados pela nossa indiferença, nosso desprezo. Somos culpados. Culpados por omissão.

Engasgo-me com uma golfada de sangue de Abel. Eis o sangue de meu próprio irmão! Minha voz sangra, nesses textos!

Há poesia, Marília, nessas palavras cobertas de papelão, de zinco, sacos de lixo? Que figuras de linguagem moram debaixo das pontes?

Consultem-se os acadêmicos. Eu não sou capaz de responder. Tudo o que pretendo é alargar os limites do visível. E desvelar o que é, hoje, invisível aos nossos olhos. E, nessa peleja, só conto com você, Marília, e com suas lentes transfiguradoras da emoção.

...Sem você, camarada, nada poderia ser dito. Nada mesmo!


***

FOTO N.º 1
Espragatados
(INSERIR: Rendição de Canudos/foto Euclides da Cunha)


CANUDOS

De onde escorrem
essas figuras líquidas?
Deslizam,
Pairam,
movem-se no ar...

Buscarão, caladas, a geometria do caos?
Aonde vai esse esse cortejo?
Quo vadis?

 Seguem a ordem inversa,
O pó dos sonhos
E adentram ao mundo absoluto...





CIDADE SITIADA



Sobre as colinas ao teu redor,
brotam favelas e o ódio cresce.
De lá te espreitam as tuas vítimas.
Enquanto danças na orgia
Do selvagem capital,
Te embriaga a vinhaça
o CO2, a fumaça;
Tocaiam os enjeitados: negros, mulheres, crianças...

▬ Tu danças e o tempo passa...
o tempo passa e tu danças... ▬

Breve a cruenta vingança
Dos operários famintos
Das putas mais sifilíticas
Dos trombadinhas lanzudos
(descenderão de Canudos?)

Breve, ó mãe dos burgueses ricos,
Uma legião de nanicos,
Vinda do alto sertão,
Fará a Grande Invasão:
Desce o Arraial dos Palmares
Que agora habita nos morros de tua periferia;
Desempregados e loucos (já escuto seus gritos roucos!),
Os quilombolas modernos,
Zumbis saídos do mangue ▬ sem-terras vindo do inferno,
Virão ceifar-te com sangue,
Armados até os dentes, com enxadas e picaretas,
Peixeiras e canivetes,
Foice-e-martelo, ...marretas.
Saquearão teus mercados, teus bancos, tuas mansões.
Farão trincheira em teus templos, alucinados de fé
E, enlouquecidos de fome, derribarão teus quartéis.

***

Um Condor gritou nas praças
É tempo de ouvir sua voz.
Se calam a voz do povo...
▬ POETAS, GRITEM POR NÓS!



Jorge Dantas Cabral de Lima Neto
(um clamor contra o sistema!)



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II◄

XLVIII - MÁSCARA






...Sento-me à escrivaninha. Trabalho como se vertesse gesso sobre um rosto para fazer-lhe uma máscara. (Mortuária?). Mas essa máscara se parece muito com a minha. O gesso, enquanto escrevo, refresca-me a face.

***

Jorge impacienta-se com as palavras, esses bichos escorregadiços que lhe escapam sempre. Levanta-se da mesa de trabalho e vai até a janela. Lá fora, o sol adeja sobre os tetos do bairro do Pina. Os velhos telhados, telhas retangulares, formam um estranho tablado, de onde emergem, vez por outra, as caixas d’água de amianto escurecido. Algumas parabólicas e espinhas-de-peixe apontam para o céu como se fossem campanários de capelas pós-modernas.

Parece um imenso tabuleiro de xadrez, pensa Jorge, imagetizando.

Apreciava o Xadrez tanto quanto o Quaderna apreciava o Baralho. Talvez por isso o mundo (lhes) pareça uma mesa e a vida um jogo, onde se cruzam Reis, Peões e Rainhas, governados pelas regras milenárias deste jogo real. Entretanto, distanciavam-se, ele e o genial rapsodo de Taperoá, no capcioso jogo literário. Jorge queria uma crônica não-epopéica. Nada de burgueses ou fidalgos. Nada de estilo régio ou pomposo.

Apesar de irreligioso, Jorge havia feito essa opção preferencial pelos pobres.

O Sol derrama-se, raios cristalinos, taça de champanhe, pelo céu azul; brilha, branco de espuma, sobre o areal; lateja sobre o lendário trapiche de André Luís Pina; brinca nas folhas novas do manguezal; repousa nas copas das árvores que ainda restam no terreno da antiga fábrica de rum; depois, vai saltitar com os pivetes, na praia do Cano.

Da varanda oeste de sua casa, Jorge vê, ao longe, os quintais cheios de vida da Rua Encanta Moça. Coqueirais, pés da fruta-pão, cajuais. Vida, verde, vida! Por que então pensar na morte? De onde me surge essa idéia esquisita de máscara mortuária? Eis um verbo difícil de ser conjugado: morrer. E, nessa manhã de sol então, é um inteiro despautério. Reanimado, volta à máquina de escrever:

-- Um d-e-s-p-a-u-t-é-r-i-o! resmunga o professor Jöhan Linz, sentado em sua espreguiçadeira.O velho mestre esferista está lendo os jornais do dia, no alpendre de seu sobradão colonial, às margens do açude de Apipucos. (ou, encruzilhada dos caminhos, como ele costuma chamar o bairro onde reside, aludindo ao sentido da palavra em tupi-guarani).
O Mestre sempre acorda cedo. Antes mesmo que os galos e o sol, vai ao quintal e conversa com suas aves de estimação: guinés, gansos, marrecos, pavões. Chama-os com sua voz mansa, timbre de mel de uruçu: tiss, tiss, tiss! Enquanto lança no ar, fartamente, grãos de milho, porções de avevita. Faz isso todas as manhãs. Diz que é um hábito franciscano. Embora não seja católico, diz que isso é um agrado que faz ao santo. Depois, sobe ao alpendre. Suas sandálias rasgam, secas, o silêncio de madeira do assoalho. Um ruído curtido, de couro. Recebe os jornais das mãos do caseiro e se esparrama na velha cadeira de balanço. Lê, um por um, todos os jornais recifenses.
-- Um despautério sem tamanho! reclama, lendo, na Seção de Cartas do Diário, uma, de seu amigo, o livreiro Melquisedec.
-- Um descaso com nossos buquinistas. A praça do Sebo virando um mictório público ao ar livre! Tem razão o meu amigo Melq. Isso não pode acontecer com a cultura recifense! pensa, em voz alta, como se estivesse dirigindo aquelas palavras ao caseiro, que ri, acostumado aos arroubos do Mestre.



***


...O Mestre fecha o jornal, aborrecido. Acaba de lembrar de um compromisso. O Instituto Franz Post, voltado para a preservação do acervo holandês em Pernambuco, (Mestre Linz é descendente dos batavos), vai homenageá-lo pela dimensão que tomou o movimento Esferista nos círculos culturais da cidade. Fala-se, à boca miúda, que o Esferismo tem provocado ciúmes até nos Armoriais, tal a importância de suas façanhas nas artes e na literatura. Acusam-no,  na certa, por inveja ou despeito , de movimento apolítico e alienado. Coisas que sempre se diziam dos que não mergulham de cabeça na luta contra o regime.

Mesmo os Armoriais receberam essa pecha, amigo Jorge. contemporizava o Mestre Linz, que não levava a sério o que propagavam da sua teoria.

***

Dizia-me, o Mestre, que suas idéias, inicialmente, se prestavam apenas para dar sustentação à sua produção artística e que jamais havia aventado a possibilidade de fundar movimento ou escola. A coisa fugiu ao seu controle depois de ter feito um discurso aos poetas, dito marginais, do ‘maldito’ Beco da Fome.

***

O Mestre não fazia acepção de pessoas. Onde havia público lá estava ele a discutir idéias. Nunca fugia a um bom debate e apreciava o convívio com os jovens artistas da cidade. Aquele discurso no Beco foi a centelha que provocaria o incêndio. Os ‘marginais’ da poesia trataram de propagar as idéias “daquele velho maluco e boa praça” pelos becos e vielas da cidade maurícia. Falavam de uma tal protopoesia associada à busca da intra-história, em que se negavam, ao mesmo tempo, a literatura e a história tradicional. Julgavam que o ‘holandês maluco’ era comuna, nietzcheano e ateu. Um verdadeiro sarapatel intelectual. Um pré-tropicalista, talvez, como o Jomard, o Mautner e o Tom Zé.
Despertariam, com essa efervescência juvenil, os olhares da imprensa alternativa e, com ela, a vigilância da insidiosa polícia política, a DOPS.

Em busca dessas novidades, a esquerda e a direita recifense acorreriam ao Clube Franz Post, naquela manhã.




XXV◄


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XLVII - CORBEILLES







Mandam-me flores. Coroas-de-flores, cravos, rosas, flores perfumadas, corbeilles. Meus pais as recebem sem a alegria de quem recebe flores. Alguns dos que as trazem conversam baixinho pelos cantos da casa.

Mas,...foi por causa dela? Ela era apenas mais uma entre tantas na vida do Jorge. Uma entre tantas? Tento retrucar. Ninguém me ouve. Não. Ela não foi apenas uma mulher. Foi a afirmação de minha fragilidade como homem, de minha limitação enquanto pessoa. E não pensem que isto que digo (será que me ouvem?) trata-se apenas de autoflagelação. Não. É pura constatação de fatos. Ela surgiu nessa história em um momento incomum. Veio ao encontro de um processo que evoluía dentro de mim. Não era apenas Mulher. Era Signo. Trazia Cabala. Guardava, em suas mãos franzinas, o Destino. Não era apenas Mulher, mas Sortilégio.

Mandam-me, os parentes e amigos, muitas flores, coroas. Coroai-me de rosas, como na Grécia, dizia o poeta português. Coroai-me de rosas – rosas que se apagam em fronte a apagar-se tão cedo! Coroai-me de rosas e de folhas breves. E basta...




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XLVI - ANIMA






Os olhos vazados de minha mãe. Lembrança ruim: cuidava da enorme palmeira do quintal da casa de Tejipió, quando um dos talos, uma haste esverdeada, espetou-lhe o olho esquerdo (ou foi o direito?). Era danada pra se acidentar, Dona Joana. Outro dia prendeu o dedo na espreguiçadeira do terraço. Foi um Deus nos acuda! Ainda bem que morávamos na rua do Pronto-socorro. De casa ouvíamos as sirenes nervosas das ambulâncias chegando e saindo. Era uma correria como essa: a mesma pressa e o mesmo nervosismo. Pra que tanta correria, minha gente? O pior já passou. Nunca gostei de pressa. Nada para mim era urgente. Isso desde a meninice.


Tempo bom, o da meninice: tardes bucólicas com cantar-de-galos, sítios com mangas no Sancho... rio do Paul, rio Triângulo, -- piabas e traíras, águas tranqüilas --, passavam lentos pelas campinas-hoje-favelas. Tantas lembranças agora, por que? Parece até que um filme de minha vida rola, instantâneo, diante de meus olhos. E essa ambulância que não pára de correr? Será que não alcancei meu objetivo? Dezessete andares e uma rua com vento a favor.Não devia ter ousado. O nome desse cais não trazia bons presságios. Por que não Dionísio ao invés de Apolo? Seria mais aprazível à alma. Alma? Que alma?

Alma: do latim anima, o princípio espiritual do homem, concebido como separável do corpo e imortal.

Alma...sou uma?


Por coincidência, hoje é segunda e minha mãe dizia ser bom acendermos velas para as almas nesse dia. As almas carecem de luz, dizia-me.
Ouvindo o som estridente dessa sirene, creio que, antes de luz, as almas carecem é de silêncio. De silêncio e de paz...



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XLV◄

XLV - MOÇA






...O Capibaribe passa lentamente arrastando consigo o Beberibe vagaroso. Os carros passam lentamente. O tempo escoa, o tempo escapa, o tempo escorre lentamente, segunda-feira abaixo. Escorre o sangue de uma ampulheta, vagarosamente, e vai tingindo a calçada em frente ao Banco. Rente ao meio-fio desliza um veio, rubro veio, lama sanguínea, escorre pela sarjeta. Sinto na boca um estranho gosto de sal. Ouço, (ou evoco), uma lenta sinfonia ao longe: “A Vida do Herói, Poema Sinfônico, Opus 40, de R. Strauss”. Andamento grave, solene. Às vezes a música vai sumindo, vai sumindo, sumindo, sumindo, até que... ...reaparece em uma finíssima flauta. Finíssimo flautim em meus silêncios. Morrer deve ser assim: uma pausa no andamento imprevisto dessa sinfonia. Haverá um Maestro a reger tudo isso com sua inexorável batuta? Em certa fase de minha vida preocupei-me em demasia com isso. Aos poucos aprendi a conviver com o transitório ser sinfônico em que habito. Mansamente começa a cair uma chuva fina sobre a Mauritzstad. As pessoas buscam as marquises do Banco e... ...a música cessa.


...Chove em algum lugar dentro de mim. E os pingos da chuva em minhas vidraças soam música. Dança na chuva um casal. Nas ruas da cidade dentro de mim, dança um casal. Mas, de repente, como em uma antiga película já desgastada pelo tempo, a música some. Dança o casal, mesmo sem música, ainda dançam, mas agora lentamente, slow motion, quase parando...Ouço então uma voz longínqua como um silvo, acutíssima. Uma voz? Um apito estridente? Uma sirena!

Ah, é uma sirena! Veio crescendo-me dentro, contínua e aflita, uma sirene agudíssima. Uma ambulância. Os esgotos sangram e avermelham a água dos rios que passam no Cais do Apolo. Há abelhas nas flores vermelhas do velho flamboyant. Explode branca, a ambulância. Os policiais espantam as abelhas e os curiosos. Deixam ficar apenas, vitoriosa e branca, a ambulância. Que é que essa gente tanto procura sob os jornais ensangüentados? Vejo, entre esses olhos curiosos, dezenas de olhos curiosos e estranhos, os olhos marejados de minha mãe. Que faz aqui dona Joaninha com esse olhar vazado?...Uma mosca irritante pousa em meus lábios. Tento afastá-la inutilmente. Começo a tomar consciência de meu estado. Essa mosca, tão frágil e diminuta, é, nesse instante, mais poderosa do que eu. Eu, --um legítimo representante de Homo Sapiens--, impotente diante de tão irritante criatura. Dominador dominado. Escravo. Entendo agora com clareza o que dizia Voltaire: “Em que consiste, pois, a vossa liberdade, senão no poder que a vossa individualidade exerceu ao fazer o que a vossa vontade exigia, com absoluta necessidade?” Mais livre do que eu, esse inseto. Irritantemente livre ao esvoaçar sobre meu rosto. Mas, o que digo? Será livre o irracional? Não sei suficiente metafísica para responder-me essa questão cartesiana. Mas, que importa agora a metafísica? Arre! Irritação fascistóide: vontade inútil de poder parar as asas rápidas dessa moça. Dessa moça? Ato falho. A impossibilidade é uma prisão terrível, moça. E acabo de tomar consciência de minha impotência diante de uma pequenina mosca. Vitoriosa, pousa sobre o meu nariz a mosca. Nada posso fazer nesse momento. A moça branca em trajes brancos troca por alvos lençóis esses jornais. Percebo, com alívio, o pequenino ponto esvoaçante afastar-se ante essa branca e providencial presença. Seus olhos me fitam com angelical ternura...




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XLIV - INTRA-HISTÓRICOS (3)






...A tarde cai sobre o manguezal. Pequeninas candeias já tremeluzem no casario. Algumas embarcações retardatárias começam a atracar no ancoradouro improvisado sob as palafitas. Os homens desembarcam estafados e se arrastam até os casebres. A miséria, com suas faces encovadas, aguarda silenciosa, em cada porta. Sua sombra tenebrosa se espalha pelas ruelas da Ilha-sem-Deus. A maré inicia sua vazante. Todas as baiteiras já estão ancoradas...


* * *


Desembarcamos com lama no meio das pernas. O que é que vim fazer aqui, meu Deus? Estou à toa. Desempregado e ocioso. Vim com uns amigos conhecer a ilha. Alguns são pescadores na entressafra. Outros, biscateiros ou desocupados, em busca de uns goles de aguardente.
As outras baiteiras já estão chegando. Um por um, vão desembarcando aqueles homens com a pele engelhada de sol, precocemente envelhecidos.


Sinto-me com se fosse um espião infiltrado no meio dessa gente. Sou um fingidor. Eles não sabem que eu trouxe os meus olhos ocultos, essas lentes de bardo. Busco palavras, respostas, que me preencham esse vazio enorme que trago bem aqui, no meio de mim. Estou oco feito o buraco que a draga deixou na maré. Estou sem mim. Cuido pra que não me descubram, corpo estranho, invasor de seus domínios miseráveis. A Ilha. Esse labirinto da miséria. Becos, lama escura, uma pontezinha de madeira, cai-não-cai! Barracos desencontrados, disformes, arquitetura caótica, amontoam-se uns sobre os outros, como os destroços de uma guerra fratricida.


Meus anfitriões me apresentam ao dono da barraca. Seu hálito traz um cheiro acre de aguardente. Chamam-me Professor. Prazer, Jorge Dantas, professor desempregado, às suas ordens! Não ousaria dizer-lhes o que realmente sou. Pelo menos o que sou aqui, nesse momento, entre esses barracos-sem-Deus. Trago comigo uma palavra escondida que não lhes posso dizer agora. Creio que não me entenderiam…


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(Continuar daqui com o texto sobre dominó ou porrinha. 12.07.07)

XLIII - QUEDA LIVRE







Entre mim e o rio quantos metros? Quantos segundos? Dez metros por segundo ao
quadrado. Entonteço. Vertigem. Ânsia de saltar, pássaro breve. Impulso Livre era o título de um de meus poemas adolescentes. Falava de um salto: a queda em liberdade, o vazio e a brisa, breve carícia em minha face. Dez metros por segundo ao quadrado. Deliciosa, a gravidade; poética, a impulsão...saltei?

O herói aristotélico é um homem bom que comete um erro trágico (hamartia). Caminhar cegamente (peripetéia) é o erro trágico: pretende alcançar um certo resultado e consegue o oposto. Finalmente, chega à percepção da verdade (anagnorisis), ao abrir de olhos, ao tardio clarão que ilumina a escuridão, e reconhece o que fazia a si mesmo.


...Saltei. E o Capibaribe, ou o Beberibe, cães sem plumas cabralinos, estão margeados por faces estupefatas. Capivaras? Rostos estranhos na calçada à cabeceira da ponte Buarque de Macedo. Os passantes me apontam narizes curiosos. O que é que vocês fazem nessa loucura de vida? O que busca essa manada? Ouço o tropel de mil reses, mil, desgarradas. Os filmes que vi na infância. Epopéias sádicas de colonos bretões. Massacres de apaches desarmados. Velhos índios decrépitos, mulheres grávidas e pequenos peles-vermelhas dizimados pela briosa cavalaria americana... saltei?


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XLII – FORASTEIRO







Sempre amei o rio, a lama, o manguezal. Pensava em misturar-me ao povo ribeirinho. Lá estão as baiteiras! Olha lá! Meninos pardos mergulham cinzentos na lama escura para apanhar mariscos cor-de-chumbo. Vida sem cor dos miseráveis! Do Olimpo, espiam indiferentes os demagogos e os tecnocratas. Dói ver a indiferença dos deuses...

Houve um tempo em que me afastei do convívio dos intelectuais e artistas que freqüentavam o ateliê do Mestre. Busquei a amizade dos pescadores. Conversas de aprendiz com os mestres-de-barco. Farras com os lúmpens das palafitas da Ilha-sem-Deus.Tentativa inútil de me sentir povão. Mas, sou um homem marcado. Indigno de viver entre os humildes. Confesso-me um forasteiro entre os simples. Um espião no meio do povo da maré. Um fingidor! E os que lêem o que escrevo sentem bem, a dor lida. Não a minha dor, fingida, mas a dor que eles não têm...




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► LXII

XLI - UNHAS

COM A UNHA do indicador ouso retirar de sua boca a ponta de seus cabelos negros. Atitude que revela uma intimidade de outros tempos. Ela se afasta. Já não há clima para uma linguagem táctil...

***

OIÇO ao longe uma trombeta. Lembra-me Shakespeare. Frases soltas, em inglês. Todas as vezes que me sinto rejeitada, lembro-me de Shakespeare, dizia-me Marília.

***

 Back to barracks! he said sternly.
 Ao quartel! disse ele, peremptório.

(um milico?)

***

CONCHA (codinome de uma velha amiga e militante) aconselhou-me a trabalhar esse meu script trágico. Não. Não sou, deveras, um anjo decaído. Embora tente inutilmente alçar vôo. Um vôo que, talvez, me curasse de todos os meus mistérios. Desses meus temores burgueses e decadentes, como diria Marília. Quem sabe, eu me tornasse mais compreensível às massas. Quem sabe eu conseguiria dizer essas mesmas coisas sem chorar...

***

TALVEZ os meus textos devessem ser mais contundentes, mais denotativos. E, por que não dizer, mais adultos. Há, por esses dias, certa urgência em esclarecer as coisas do mundo. Interferir na Polis. Fazer política. Tomar partido pela vida! Isso eu sei, Marília! Mas estou entravado na adolescência. Sou romântico por opção profunda. Não sei falar dessas coisas sem chorar. Saem lamurientos, os poemas? Solenes, como me alertou o Serpa Lopes? Tenho a visão embaciada pelo que faço de mim. Mas estou uno.

Choro simultaneamente pelos amores perdidos e pelos barracos cobertos de plástico da Ilha-sem-Deus.
Choro, coberto de plástico, saco-de-lixo, pelos amores frustrados.
E não sei separar, dentro de mim, a dor de avistar uma rosa murchosa, dessa outra dor que me traz a visão de um pivete ossudo, zonzo de cola-de-sapateiro.
Eu não sei ser mais de um, Marília.
Mas, tu és múltipla, tu és miríades, e és sempre tu. Como consegues?

***

OIÇO um canto gregoriano.
És tu que cantas.
Agora, um baticum de tambor de jongo.
Vem de ti, o ritmo, voz da negritude.
Há pouco ouvi uma trombeta shakespeareana.
Lá estavas tu, no sonido metálico da trompa.
Todos os sons em tua fricativa voz.
Todos os sonhos.
Todas as linguagens.
Como consegues?

***

 LÍNGUA dos homens, língua dos anjos, címbalos sonoros? Nada disso importa, Jorge. Tenho amor.


DIZIA-ME isso enquanto enquadrava um mocambo em sua lente. Clic. Um maluco das ruas, vestido de trapos. Clic. O lixo na lama do Capibaribe. Clic. Um soldado espancando um grevista. Clic. Marília ama fotografando. Ama a Cidade pelas suas chagas. A barreira deslizou em Águas compridas. Os detentos em rebelião na Casa de Detenção. Uma menina sem nome que foi assassinada, na praia do Pina...

 ESSE trabalho só se faz amando, Jorge.

***

Á NOITE, limpávamos, pacientemente, a lama incrustada nas unhas do dedão do pé...




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XL - LUNAR

CAPÍTULO EM CONSTRUÇÃO (ESBOÇO DA IDÉIA)

TÁBUA DE MARÉS
Preamar#02h21
#14h18
Baixa-mar#08h36
#21h00





(INSERIR IMAGEM)
Disco celeste de Nebra
relógio astronômico com 3600 anos)





As horas correm fluviais, e atravessam essas páginas amareladas. Amarelentas, passam as horas, milhões de horas, dias e noites... A maré, lenta, conta e reconta, suas enchentes, suas vazantes. A maré lenta some no mar/surge do mar: um horológio lunar.

***

Essa planície litorânea, protegida pelas pedras, demonstra, com aquática exatidão, o pensamento do cronista de Canudos, quando postulava que “a geografia prefigura a história”.
Primeiro, as madréporas, com um trabalho paciente de milhões de anos, guarneceram com muralhas, a saída dos cinco rios desse delta, cingindo o mar com essa cinta de arrecifes calcários.
Depois, então, as enxurradas, os aluviões, as águas pluviais, os rios, enfim, foram carreando material para a foz, para o gargalo de pedra, formando aquela lingüeta de terra, o porto natural, atual Cidade antiga.
A flora teve também sua tarefa: as raízes do vasto manguezal foram fixando os resíduos sólidos carreados pelos rios milenares, formando pequenos bancos de areia e lama. Essas pequenas ilhotas permitiram o surgimento de uma fauna, que aprendeu a conviver no ponto de encontro do mar salgado com as águas fluviais.

A força que regia toda essa geografia, o relógio que marcava o tempo dessa proto-história, as sístoles e diástoles desse animal-maré, as enchentes e as vazantes do mar, bebendo os rios:

(((( as fases cíclicas da Lua.

Preparada a geografia, essa ambiência da gesta humana, eis que, num dia remoto, seriam erguidas as choças dos aborígines, dando nascimento à história.
Não seria, decerto, a mesma história que brotaria no sertão, ou na floresta amazônica. Acolá, a geografia é outra, e prefiguraria uma diversa forma de instalação humana no mundo.

Aqui, surgiria o homem da lama e da lua, o homem-caranguejo, assustadiço e noturno:

(((( o homem lunar.

Muitas luas se passaram até que aqui aportou o invasor europeu, com seus missais e seus arcabuzes, forçando os nativos lunares, a internarem-se nas matas, povoando o interior. Ao longo dos séculos de colonização violenta, o invasor, ávido por riquezas naturais, também vai se embrenhando pelos sertões.

No interior do continente, aquela geografia do Sol, das Vidas Secas e da escassez; uma geografia da fome e da sede viria gerar a história de outra povoação. Surgiria ali, outra espécie de indivíduo, com uma feição rude e recrestada:

)))) o sertanejo, o homem solar.

Aqueles homens solares,fugindo dos inóspitos sertões euclydeanos, depois de se insurgirem contra a aspereza da terra e do clima sertanejo, que os enlouquecia de fome e de fé (Canudos, Pedra Bonita), um dia, desceriam, famélicos, seguindo o leito seco dos rios, vindo dar com os costados nas cercanias insalubres do manguezal.

Portanto, essa história que aqui se narra,
inicia-se com as madréporas, trancando a porta dos mares com a pedra dos recifes; continua com o desaguar dos rios, sedimentando a planície litorânea;
agarra-se às raízes do manguezal,
e, finalmente, se instala, nessa face ribeirinha, de alagados, de afogados, de ilhados homens lunares.

Depois, muito depois, aqui chegariam, arribados do sertão, os homens solares.

Carregando na alma o estigma de desterrados, os solares ficariam aluados e sem Deus. Longe de seu habitat, coabitaram com os lunares enformando uma nova povoação. Os descendentes desse novo povo receberiam, por uma antiga taxinomia, a classificação (zoológica?) de bóstrix n’água, cuja característica é viver à-toa, boiando feito lixo, à flor das águas da maré.

A partir desse advento, instaura-se o presente e in/augura-se essa intra-história.



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►XXXIII

XXXIX - VERTIGEM





Dezessete andares, possui o prédio do Banco. Construção dos tempos milagrosos da ditadura, ergue-se, imponente, entre o rio e o mar. Daqui de cima pode-se ver todo o Recife Antigo. A brisa do Atlântico sopra forte e faz tremular a bandeira azul e branca que foi fincada aqui na cobertura. Lá estão os rios de minha terra! Encontraram-se por trás do Palácio do Governo e seguem abraçados para encontrar o paredão do cais do porto. Conseguiria eu, ajudado pelos ventos do oceano, conseguiria eu, num salto-pássaro-audacioso, alcançar os cães implumes, mergulho profundo nos rios-irmãos?



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► L

XXXVIII - MAGRICELA

A patroa entrou de repente e flagrou Seu Levi com a mão enfiada dentro das minhas calcinhas. Apanhei na cara limpa: dois tabefes. Depois, fui escorraçada do emprego feito uma cadela sarnenta. Entrei em pânico. Chorei desesperada, porque sabia que não tinha mais onde morar. Minha avó não iria me querer em casa. Quando decidi trabalhar de empregada doméstica, virou pra mim o olho que enxergava (ela tinha um olho só) e disse que eu teria de me virar com meu patrão, o português, dono dos barcos. E que nunca mais voltasse à Ilha-sem-Deus. Eu não entendi bem o aviso. Mas agora eu sei de que me alertava. Caí nas garras de um tarado por crianças.
Como não tinha casa pra voltar, decidi ficar zanzando pelas ruas. Parecia bosta n’água. Passei dias de fome e sede. Andava suja e maltrapilha. Até que lembrei de procurar Dona Sula, minha madrinha. Ficava na Brasília Teimosa, aquela comunidade de pescadores que invadiu uns terrenos da Marinha. Fui bater lá. Eram uns oito ou dez palafitas, protegidos do mar pelos arrecifes. Minha madrinha era muito pobre. E tinha um jeito esquisito. Naquele tempo já morava com outra mulher. As duas me olharam penalizadas. Não tinham muitos recursos, mesmo assim fui bem acolhida. Roupa, comida, esteira pra dormir. Mas minha madrinha não tinha como me sustentar, coitada. Fez o que pôde.
Por conta daquela miséria extrema, em poucos dias, meu drama iria virar tragédia urbana. Fui levada pelas mãos da minha madrinha (sei que não fazia por mal) para João Estivador. Ele era quem ‘preparava’ as meninas da zona.
Doeu muito aquilo. Doeu no corpo e na alma. Perdi sangue por uns cinco dias. Nem era moça ainda. Treze anos, uma criança. E o João era um cavalo batizado. Gigolô da Odette, famosa dona de bordel, ele era considerado o pai da zona. Estuprava e depois largava as meninas no baixo meretrício. Vivia disso. Todas as cafetinas do lugar o tinham na maior conta. E pagavam pelo serviço.
Foi assim que de déu em déu, de mão em mão, fui parar na zona mais infecta da Brasília Teimosa. Tornei-me, a Magricela, ninfeta preferida dos pescadores, marinheiros e gringos pedófilos, em visita ao Recife. O que poderia eu esperar da vida, além da solidão e da doença?
 Foi assim que cheguei até aqui, doutor. Tenho apenas vinte e poucos anos e já estou nessas condições de saúde.


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► XXXIX

(Continuar daqui, com a descrição do hospital do câncer.
Sífilis, câncer de útero, HPV, cancro mole, etc.)

XXXVII - JANELAS

Minha mãe me dava muitos livros. Meu avô me dava muitos livros. Eu então me trancava no quarto. O meu quarto era o dos fundos, o que dava pra Pitombeira. Ali os sorvia, cada capítulo, frase por frase, com uma avidez estranha. Quase em transe! Foi por esse tempo que comecei o meu projeto. Secretamente, transformei a arquitetura do quarto. Construí portas secretas que davam pra outros mundos. Janelas que davam pra amplidão. Mamãe me via escrevendo e dizia que era melhor que eu cuidasse de estudar e parasse de copiar modas. Modas, quer dizer, modinhas, canções. Na época eram populares os jornais-de-samba, folhetos com as músicas preferidas do rádio. Não, Dona Joaninha, não eram modinhas. Não se preocupe, Seu Cabral, seu filho não é um maricas. Não eram modas, eram poemas. Os mesmos que eu um dia iria queimar em uma de minhas crises depressivas. Poemas fugazes de paixões mais fugazes ainda. Alguém me disse, foi um desperdício, a cremação. Deveria ter queimado meus desencantos por dentro. Ora, meus desencantos só findariam se eu me atirasse às chamas. Eu era covarde demais para o ato. Tremi. Não era ainda meu dia... Menino, abre esse quarto! Ó Jorge, apaga essa luz!...




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►XXXVIII

XXXVI - CACOS

primeiro estilhaço:

O Bóstrix não narra fatos em uma técnica tradicional, tal como a maioria dos romancistas do século XX. Em vez disso, utiliza-se de uma linguagem que representa fragmentos de episódios, flashes. O leitor deverá reunir os mosaicos em que se apresenta a narrativa, e com eles criar uma espécie de paráfrase, em sua tela mental. Só desse modo, a linearidade e a coesão entre os capítulos(?) será resgatada. Uma colagem dos cacos de um vaso é, na verdade, a leitura de narrativas desse tipo; tentativa (inútil) de encontrar a totalidade perdida.


segundo estilhaço:

O eu-enunciador de Bóstrix Nágua evoca a intra-história de um certo Jorge Dantas Cabral de Lima Neto, poeta desempregado e livre-pensador, que relata, em manuscritos, os apontamentos de sua pífia atuação política, em meados de 1974.

Trata-se de uma tragédia urbana. Gira apenas em torno das pequenas angústias pessoais do personagem e de suas conseqüências. Jorge Dantas vai desvelando os seus temores diante da brutalidade do golpe militar, mesclados com as complicações de sua amante, a fotógrafa Marília Spencer, braço direito de uma célula subversiva, em certo arrabalde recifense.



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►XXXVII

XXXV- BESTA OSMANIANA





“Agora, erramos, orgulhosos e tristes, de ato vão em ato vão, modelando vasos fechados e cortando lanças circulares, não mais portadoras de aguilhão. Uma besta espantosa, de índole recurva, nasceu do cansaço universal e impera entre nós: come voraz a cauda e engole a própria garganta. Criações e atos perecem: sua respiração interna, letal.”
.............................................................................................................................................Osman Lins




Nos últimos dias, venho sentindo a sensação de estar criando um inútil objeto estético. Não há como escapar desse sintoma neurótico, sendo cidadão de um mundo niilista. Poderia alguém viajar no ventre da baleia sem ser digerido pelas secreções de suas vísceras; sem se corromper, sem sucumbir ante a volumosa força das entranhas do cetáceo?

Sempre me acordo tomado pela angústia de ser parte de uma civilização que agoniza lentamente. Sento-me, todas as manhãs, diante dessa máquina e modelo uma estranha máscara mortuária. Folheio Osman Lins e deparo-me com a imagem desse animal autofágico. Somos contemporâneos de uma sociedade entrópica. De um organismo que se despedaça. Uma máquina programada para destruir a si mesma...

Enquanto modelo essa máscara, ouço ao fundo a voz dorida de Edith Piaf. Pela janela vejo a Ilha-sem-Deus. Invade-me as narinas, a maresia do ar. Meus cinco sentidos, as portas da minha alma, repentinamente alertas para essa apreensão lírica do mundo. Um lirismo arrebatador, como um súbito acréscimo da receptividade disto que me circunda. Percebo, apavorado, uma dilatação dionisíaca do real. Eis que o grande Pã me sufoca! Sinto-me diante da perspectiva de ser devorado pelas mandíbulas dessa besta espantosa, que estertora, enquanto que me arrasta no seu ventre. Do fundo da alma me chega uma oitava de Camões:

“Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da Terra tão pequeno?”


Não sei por que insisto nesse tema. Minha psicanalista, ao ler a ELEGIA PÓS-MODERNA, poema que eu acabara de escrever, aconselhou-me para que me ocupasse com amenidades.

— Ninguém se interessará por essas coisas, Jorge, ponderava ela.

Foi o bastante: abandonei seu consultório e nunca mais voltei lá.
Conforta-me constatar, ao ler Osman e Roger Garaudy, essas duas grandes almas, que desde 1968, eles também estavam debruçados sobre o mesmo tema... Na Europa, o Green Peace mal dava os primeiros vagidos...

Estaríamos todos criando uma obra inútil e sem sentido?
Pouco me importa! Arranharei, com unhas afiadas, o ventre verde-oliva desse monstro. Creio ser esta a única atitude possível, no presente momento histórico, a quem viaja nessa bizarra embarcação.


***

(transcrevo abaixo o poema criticado pela psicanalista):



ELEGIA PÓS-MODERNA
ou Réquiem ao Futurismo


É preciso traduzir a náusea dos esgotos a céu aberto,
A lenta agonia dos canais imundos,
Escoadouros dos dejetos vis da máquina do mundo.
Quero versos oleosos e negros
Que exalem a fedentina dos peixes mortos
pelos milhões de barris de petróleo jogados ao mar.
Palavras pútridas e fétidas
Como a alma dos rios das cidades industriais.

Houve um tempo em que se cantavam odes triunfais
Fraques e cartolas saudavam fubicas velozes.
Mas os futuristas há muito mudaram-se para o campo
Apavorados com o rugido cruel dos motores da Ferrari.

Ó, adoradores do imediato,
Há motivo para exclamações eufóricas?
Hoje, um supersônico atravessa a Etiópia num segundo,
E nem por isso os negrinhos esquálidos sobrevivem à fome.

É preciso elegias e não odes.
Nossos versos não devem amar os antigos.
Façamos os versos para/odiá-los.
Na morte, para onde iremos, não há ciência ou indústria alguma.
E vos digo que Marinetti não leu uma linha sequer de Rudolf Clausius ou Sadi Carnot.
Saudava os automóveis num mundo laplaciano e
Com fontes inesgotáveis de energia.
Arre! Santa tolice!
Sobre as fábricas, sobre as gares das metrópoles modernas,
Pairava o irreversível anátema da entropia.

Era mentira a correria do progresso.
Havia um câncer na alma de aço do mundo.
Choremos, pois, à dolorosa luz das siderúrgicas,
Com seus fornos entrópicos, desagregadores e falidos,
onde arderam cadáveres proletários.

Novos profetas apregoam o fim de tudo!
(Entre eles vejo a cabeleira desgrenhada de Einstein)
Ogivas álgicas inauguram o apocalipse.
Baratas cascudas passeiam pelo parque, indiferentes.
E as criaturas perdidas na imensidão que enche a Terra
Olham o firmamento, angustiados olhos ardentes...

Tenho febre e escrevo:
Agora os poemas estão pejados de nojo.
Rói-me um cínico remorso:
Pertenço à raça abjeta de construtores dessa sociedade necrófila.
O que somos, além de um bando de aves de rapina?
Criaturas assombrosas e assombradas, digitamos programas genocidas.
Grandes máquinas soterram lagos.
Serras sórdidas ceifam florestas.
Ó civilização decadente e agonizante,
Ocaso caótico dos engenhos mórbidos,
Raça de víboras que morde a própria cauda!
Ó rodas... ó engrenagens enfraquecidas! Rangido obsoleto.
Mundo ferruginoso das máquinas esquecidas no pátio de manobras.
Espasmo retido dos maquinismos atrofiados.
Onde a fúria inconseqüente?

Tragam-me à cena os futuristas!
Velocíssimos computadores de quinta geração
Teleprocessarão dados dantescos:
Milhões de mortos na China;
Miséria nas favelas do Brasil e fome nas tribos africanas.
Distante, o brilho dos bólides sobre Guernica,
Chorem comigo lágrimas ardentes com os olhos japoneses de Hiroshima;
Assistam comigo aos mísseis pirotécnicos sobre o Vietnam.
E então eu lhes declamarei cloacas pestilentas
Rimas de vísceras de crianças mutiladas
Versos azuis de Césio 137.

No meu país os sofistas traficam leis no Planalto Central
Enquanto os filhos brincam games videotas cercados de seguranças.
É a nação dos que acordam sob as marquises e tropeçam bêbados na angústia.
Lá, os letrados insistem em dizer, em bom vernáculo:
Produzir é preciso!
Viver, não é preciso.

Por isso na há mais tempo para os poetas que se esgueiram pelos becos
Com elefantes escondidos entre os medos.
Nem se pode mais fugir pra Pérsia ou Gerais. Minas não há mais.
Mas há uma enorme pedra no caminho
E a vida humana exige a sua remoção.
Há metafísica maior do que cruzar com gente saudável e dizer bom-dia?
Há algum pecado em sonhar com uma menina a comer chocolates
E esperar que seu pai tenha um emprego para pagar a conta da Tabacaria?
É panfletário querer o poeta água limpa e comida nas mesas modestas?
Sim?!
Já não me importo!
Não há mais tempo.

A febre aumenta e ainda escrevo.
E ouço o ranger de dentes dos demônios do turno da noite.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a frieza disto.
Um frio entrópico disto totalmente imprevisível para os antigos
Que os gregos, os rabinos e Constantino
Morram asfixiados com o cheiro surpreendente das tintas e solventes
Da oficina de lanternagem!
E que os pequenos anjos do aroma sintético
Do pintor neobarroco Eugênio Paxelly, assaltem os passantes,
Ou sujem pára-brisas por moedas irritadas.

Gordas matronas empurram carrinhos repletos do inútil,
no Shoping Center Augusto Comte;
Aristóteles, zangado, faz careta ao fim do século.
Deliro, febril e convulsivo.
Digito, a custo, stop no remoto.
O vídeo perde o brilho estúpido e eu adormeço enquanto
Espero a morte lenta e contemporânea dos morféticos
E os poemas escorrem do meu corpo, feridas purulentas e escuras,
Como os rios sem vida que cruzam a minha terra natal...


Jorge Dantas
maio/72


►alea índex

►XXXVI

XXXIV - MORELLI



p. 486 de Rayuela


— Influências morellianas, meu rapaz?

— Sim, e de tudo o que li. Alguns, como Morelli, li mesmo no original. Mas, creia-me, Mestre, não busco, como ele aconselha, um drama sem édipo, um drama impessoal. Muito pelo contrário. Não me atrevo a almejar a grandeza desse genial Morelli. Na verdade, o recurso de que vou me utilizar, nele inspirado, é aquele que chamei de ‘ornato circular’, ou seja, um desenho enarrativo não-linear.

— ???

— Já me explico: preferi plagiar a sequência morelliana de capítulos, mais lúdica, para não repetir a enfadonha numeração seqüencial e sucessiva de capítulos, comumente usada pelos romancistas. Nisso, pelo menos, serei parecido com aquele mestre da literatura universal.


***

— Busco ainda “compreender por que razão o princípio da indeterminação era tão importante na literatura, por que motivos Morelli, sobre quem eles tanto falavam, a quem tanto admiravam, pretendia fazer do seu livro uma bola de cristal, no qual o micro e o macrocosmo se uniam numa visão aniquilante.”

Seria ele um precursor do Esferismo?





► XXXV


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XXXIII - MAGRIÇO





Uma sugestão divina (quase sempre, esquecida pelos cristãos):

"quando orares, entra no teu aposento e ora em oculto,
pois teu Deus, que vê em oculto, te responderá..."
..................................(Evangelho de Mateus, o publicano)







DEITADO na calçada, sob a marquise do Grande Banco, geme o pivete, quase inconsciente. Geme e balbucia frases desconexas:

 Dum gáa laicote noberrete van...áli kam menesse! Áli...

Os passantes olham rapidamente, acostumados à miséria nas ruas da Cidade. Na praça, em frente ao Banco Lar Brasileiro (sugestivo, o nome), megafones histéricos anunciam o reino de Deus. Fiéis entoam cânticos entrecortados por ovações e aleluias. Uns emocionam-se com as palavras de um exaltado orador e sussurram glossolalias. Os mais jovens dirigem-se até o pivete que se contorce na calçada.

 Dum gáa laicote noberrete... áli kam m...
É a língua dos anjos, grita surpreso um dos jovens crentes.
O Pastor, comovido, aproxima-se dos jovens fiéis.
 É o sinal dos tempos. O sinal do profeta Joel. Cristo breve vem!

A platéia de curiosos e protestantes cerca o corpo do menino magricela.
Surge, então, espremendo-se no meio da turba, um preto velho, barba branca, carapinha. Pede licença aos populares, o ancião, pele negra avermelhada, jeito manso de avatar indiano, e levanta o pirralho pelos braços franzinos.

 Vambora, Magriço, alevante... Cadê teu irmão? Alevanta!

E, dirigindo um olhar de olhos baços, aos curiosos:

 Num é nada não, gente! Ele é neto da Nega Ôiazul, minha vizinha lá da Ilha-sem-Deus. Né nada não. Isso foi cola. Cola de sapateiro e fome...


Diante do Grande Banco do Lar Brasileiro, a praça volta à mesma liturgia da vida normal. Os passantes voltam a olhar tudo rapidamente, acostumados a cruzar com a mesma miséria nossa de todos os dias. Os fiéis retornam aos mesmos megafones estridentes, anunciando o mesmo reino de Deus.

Arrastando seus andrajos, afastam-se, resignados, o velho e o menino, na direção da Ilha miserável...

Pelos becos e vielas da Cidade, ecoava a milenar indagação de um fariseu:

"Senhor, quem é o meu próximo?"

E o pastor, grave e solene, em frente ao Grande Banco, prega, ao megafone, a mesma, e tantas vezes repetida, parábola do anônimo samaritano.


***

Trancrevo aqui uma sofrida epifania do JORGE DANTAS:



O NEGRINHO E A FÉ NO VAZIO


O negrinho favelado, magro e feio orava todo dia,
Pedia queijo e pão
Boneca pra irmã
Sapatos e um pião...
Passava o dia perambulando pela cidade,
Bigu nos ônibus, pela traseira;
Catando lixo
Cheirando cola
Batendo bola, carteiras e relógios;
Banhando-se nas fontes
Salto solto das pontes, fugindo dos meganhas.

Mas, á noite, no barraco,
Daquela Ilha-sem-fé-e-sem-arrimo,
Rezava com insistência,
Pedia a Deus clemência:
Decerto ia mudar, crescer e estudar.
Dar duro no batente,
Morar numa casa rica,
Ter uma mulher bonita e um cobertor de lã.
Que Deus não esquecesse a boneca da irmã...

Até que um dia, o negrinho foi flagrado
Fumando a erva numa esquina da favela
E angustiado, perguntava ao soldado:
Se eu rezo tanto, por que não sou atendido?
Menino besta, porque Deus nunca existiu.
Quando se reza, a gente fala com o vazio.

E o negrinho, magro, feio e favelado, nunca mais rezou.
Ficou mais magro, feio, favelado e triste.
E, dentro do peitinho desolado,
Um deus distante, surdo e mudo, inacessível,
A quem culpava por sua vida de excluído.
Mas, quando adormecia no barraco, ébrio de cola, fome e frio,
Ainda sonhava haver no céu um estranho deus:

O Vazio...



► XXXIV

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XVI◄ (link sugerido pelo autor)

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

XXXII – BÓSTRIX




Recife, 31 de março de 1974,
dia de poucas luzes.
(Ano 10, depois do Golpe Militar)



Hoje amanheço com pressentimentos por todo o corpo. Talvez tenha dormido em má posição. Preocupa-me, esse corpo frágil em que habito. Destituído das fortalezas edênicas, mortal, quem me garante o que me vai suceder no próximo instante?

Os filhos por criar, a obra inconclusa...
Devo tomar algumas providências:

os filhos, recomendo-os aos familiares que sobreviverem ao meu desaparecimento; a obra inacabada, ao meu mestre esferista, Jöhan Linz, a quem faço depositário desses apontamentos sem costura, ou costurados pelo avesso de mim.

Deixarei, do tecido das minhas idéias, uma possível urdidura, que não pretendo que seja o único caminho de leitura; deve-se buscar o bordado ideal, o nexo, (se há um) entre os incidentes de texto.
Essa trama movediça é como a vida: tessitura de armadilhas. Cada incidente traz a certeza e o sobressalto.

No Bóstrix, isto é, no bastidor encaracolado abaixo, está sugerida a ordem possível desses apontamentos (capítulos?), que pode ou não ser seguida.

Inicia-se por este XXXII e segue-se o ornato circular.

Uma sinalética de pé-de-página (ir para),(voltar para) obedecerá a seqüência sugerida no desenho abaixo.



(DIGITALIZAR DESENHO DO BÓSTRIX)





.........................(1º esboço do bastidor da urdidura possível).....................


► XXXIII



►alea index


I◄

XXXI - M'BOI






"Um monstro flui nesse poema
feito de úmido sal-gema.
.............................................
Se vós não tendes sal-gema,
não entreis nesse poema. "

Jorge de Lima



verde lama, sombrio, profundo verde,
pântano insalubre, salobro, alagado, movediço.
undialvas palavras acopladas tremeluzem à penumbra da maré.
boiúno, pardacento, quase extinto, o derradeiro...
um minotauro flutua, procurando por um.
uro d’água, miúra doméstico, búfalo aquático,
precursor anfíbio da vaca sagrada.
bovídeo: viu-se ou não se viu?
viu-se a miragem tremeluzindo sobre a maré sombria.
undialvas palavras acopladas...
osmanjoyceróseoarianas...
mbóiuna, mba’êta’ta
ulyssesnãomoranamaré
asparávolasevolam-senahistória,
masvivempelaintra-história.

►alea índex
Glossário virtual: M'boi

XXX – WAIA'MU






Tábua de Marés
Baixa-mar # 8h36
Horológio Waia’mu




...Sai, vagarosamente, da loca lamacenta, montado sobre seus cinco pares de patas ambulatórias, o velho e gordo Waia’mu. Emerge, o imenso Uçá, das raízes enlameadas da rizophora mangle. O sol, ainda tímido, rebrilha em sua carapaça de um azul intenso. Ergue, num movimento plácido e solene, a imponente cefalotórax, e espia, cauteloso, toda a extensão da margem da maré. Mexe os olhinhos robóticos, como que fazendo uma varredura em campo minado. Hesita. Vacila. Simula algumas passadas para trás. Depois, com rigor de ordem unida, começa a locomover-se sobre seus dez tentáculos cabeludos. Uma após outra, vai enfiando suas patas de unhas pontudas, nos lugares mais firmes da lama. Os pequenos apêndices situados atrás dos seus maxilares movem-se, a esmo, antenas escatológicas, captando o lixo orgânico. O Uçá balança sobre os detritos, espumeja e saboreia, coprofágico, a escória humana. Baba de prazer, ingerindo os excrementos.

...Assim, o velho e gordo Waia’mu reinicia, com resignada sabedoria, o milenário ciclo vital dos habitantes da maré...




►alea índex


►LIII

domingo, 1 de agosto de 2010

XXIX - MITOPOÉTICA




"Se quiserem escrever sobre essa urbe fluvial, enveredem pelas suas matrizes míticas, pelo que nela há de aórgico e de ancestral. Busquem uma Mitopoese antes de uma História. Lá nascerá o homem, o herói angustiado e só, entre temores e tremores. Subam aos arrecifes nas noites das grandes ressacas de agosto. Deixem-se arrastar pela força das enxurradas, nas enchentes das várzeas do Beberibe e do Capiberibe. E durmam ao relento numa baiteira em noite de tempestades sobre o manguezal. Corram nus, pelas margens enlameadas, sob o ribombar dos trovões, como caranguejos de andada. Sintam medo, sintam pavor, mijem-se e caguem-se ao fulgir dos raios e relâmpagos que derribam os altos coqueiros nas praias deserta da Ilha das Cabras. Ali também estarão os elohins, os odins, os vulcanos, os oguns, tupãs e todos os elementais, pois os deuses são também brasileiros e habitam, ab origine, o delta de nossos rios. Ave! Shalom! Saravá! Alah-Hu-Acbar! Viva Deus, que pequeno sou eu!”   (Jöhan Linz)




Depois daquele dia, no Clube Franz Post, em que ouvi o memorável discurso do Mestre Johan Linz sobre a Protopoesia, criei coragem e resolvi escrever essa coisa caótica e fragmentária, assim mesmo, de meu jeito.
Euclydes da Cunha, primeiro, Ariano Suassuna depois, enveredaram pelos Sertões, cada qual a seu modo, porém movidos, os dois,  dizia o Mestre Linz, pela mesma “grandeza majestática da árida paisagem sertaneja”.
Decidi também enveredar, a meu modo, com “as lentes transfiguradoras da (minha) emoção”, pelo não menos inóspito e dramático universo do meu Mangue interior. Interior porque não se trata apenas do mangue que vejo, que via: as rizophoras esverdeando o estreito horizonte; os palafitas fincados nas margens do rio.
Mangue interior porque é mais que isso que os olhos percebem.

Não se trata apenas de buscar uma enarrativa na geografia do manguezal, no relógio lunar das enchentes e vazantes da maré, no ar carregado de maresia... Trata-se de desencravar a história anteriormente prefigurada nessa geografia. Ou melhor, mergulhar na intra-história que jaz na alma dessa gente ribeirinha, que é o verdadeiro lócus geográfico de onde brota, funda e inconsciente, a lenda coletiva, a mitopoese da maré:


“...Jaz a Noite Imensa sobre o mangue...
A cidade surge antes,
das enchentes, das vazantes,
fundação amorfa, sem face, vazia...”


E como se vão sondar essas raízes intra-históricas sem lhes descobrir as matrizes míticas?
Haverá mito na maré?
Ouvir-se-á aqui o arfar da Onça-parda suassuna?
Algum monstro anfíbio resfolega à flor das águas?
Um elohim?
Um orixá?
Um rei defunto que regressa?

Só lama e gente: a raça piolhosa dos homens, diria Quaderna.


***


O manguezal, Mestre. Essa é a minha única saída para o universo, minha efabulação, minha mitopoética...
Mas, insisto, que mitopoética se ergueria dessa paisagem enlameada da maré?
Jamais a mitológica estirpe sertaneja de Bel-monte. Enlouquecida, mas, régia e solene. Onde encontrar aqui as armas e os brasões armoriais, os ferros heráldicos com que lá se marcam os bois, as herdades, os retábulos, as crenças, a fé?
Entre os mocambos, apenas seres enlameados, furtivos homens-caranguejos, escondem-se, encovam-se, assustados crustáceos. Nada neles é majestoso e forte. Neles não há uma epopéia.


No entanto, quem sabe, os tetranetos de Canudos, arribados daquele sertão euclydeano, tenham vindo aportar às margens do Rio Pina, do Rio Tejipió. Com eles devem ter vindo as imprecações, as chagas, as rezas e os gemidos da caatinga; com eles, toda uma mitologia soterrada em suas almas, em seus corpos; com eles, a subterrânea e funda mitopoética dos aboios, dos repentes que ouviram por lá.
Toda essa intra-história campesina, egressa do sertão, irá aflorar, como ilhotas à flor d’água, em anônimas biografias (manguesinas?).
***
As luzes são dos coriscos do sertão, mas o que ecoa é o ribombar trevoso dos trovões, na escuridão da Ilha-sem-Deus.

Evoé! Tupã vive!


►alea índex


XXVIII◄

XXVIII - ATELIÊ






...Anteontem, depois de ter lido e relido, várias e demoradas vezes, a carta do afamado beletrista, Dr. Abdenego M. de Souza, resolvi ir até o ateliê do Mestre Jöhan Linz. Estava deveras perturbado. Não imaginava – santa ingenuidade! – que a minha obra seria tão destratada. Pus-me a caminho do ateliê, ruminando essas coisas. Era de tarde e o sol ainda estava alto. Procurava, como de costume, a proteção das ruas ensombreadas da Boa-vista. O Mestre já havia mudado do velho endereço da rua dos Prazeres, 50. Alugara um sobrado antigo e espaçoso na Leão Coroado. Ficava no 1º andar e tínhamos de subir uma escadaria de madeira. Não havia ainda a campainha e nós gritávamos bem alto da calçada em frente. Eu e o Mestre andávamos tão sintonizados que muitas vezes ele punha a cabeça na janela antes mesmo que eu o chamasse. Dizia que percebia meus fluidos ao longe. Nunca liguei muito pra isso. Mas hoje estou mais próximo de crer. Minha mente está em um estado próximo dos êxtases místicos. O estado de numinoso jungueano.

Era talvez por esse tipo de ligação que eu estava indo procurar o Mestre naquela tarde. Precisava de alguém que me ajudasse a fazer uma sincera autocrítica. Causou-me um choque a carta do eminente doutor. Tantos meses de trabalho. Dura rotina diante de uma máquina de escrever. Dores nas costas e outras algias incômodas. Meses de pesquisa. E como é difícil a pesquisa de um autodidata! É um tal de procurar aqui e ali. Escreve pra um. Aborda outro nos congressos, nos vernissage, palestras. Uma luta! Pra depois...isso. Uma crítica demolidora! Aviltante! Conversar com o Mestre me faria bem. Ele sabia como ninguém levantar o nosso astral. Era uma grande alma! Um mahatma! Seu pensamento esferista me abria a mente. A ele, de certo modo, devia a sustentação teórica de meu trabalho. Embora não fosse escritor, suas meticulosas argumentações sobre a arte me moviam a pena. Era plural, o velho bruxo da Boa-vista. Era, como ele mesmo gostava de dizer, esférico...

-- Porque tu falas tanto na morte em teus textos, Jorge? A morte é apenas uma passagem para outra instância. Como uma mudança de estado na matéria. Somos imperecíveis, meu amigo. O ser é indestrutível. Nada verdadeiramente se destrói. Tudo está mergulhado no transformismo fenomênico. Falas de uma entidade que não tem existência em si mesma.

-- Mas eu não falo da morte em meus textos, Mestre. Pelo menos diretamente. Tudo o que faço, penso ou escrevo, busca algo que está na morte e que, no entanto, não é a morte. Minha linguagem é a economia-do-medo-de-findar-no-sem-sentido. Em todos nós habita, de algum modo, esse projeto, secreto e inútil.


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►I (Jorge)

XXVII - LEÕES ZUMBINDO






Manhã de segunda-feira.
Cruzo a ponte Maurício de Nassau, distraidamente. Vou ruminando o insólito Recife osmaniano que acabei de ler:

"A caminho da Delegacia Fiscal, atravesso a Avenida Rio Branco e vejo uma aglomeração perto da ponte Buarque de Macedo. Automóveis e ônibus arrastam-se em marcha lenta. Ouço comentários esparsos na esquina do Niágara... há um corpo estendido sobre o calçamento do cais do Apolo. De que morreu? Sabe-se quem é? Um desconhecido, o rosto coberto por jornais. Suicídio ou acidente?"

Afasto-me pensativo a caminho do cais do porto. Leões osmanianos zumbem entre os sobreviventes apressados. Zumbem leões dentro de mim.







► XXVIII

► alea índex

► XXIX

XXVI - A PROTOPOESIA


(falação etílica e inflamada de Jöhan Linz, em certo Congresso de Poetas)



Srs. Poetas,


(...) Estava, decerto, movido e comovido pela grandeza majestática da árida paisagem sertaneja, o escritor Euclydes da Cunha, quando pontuava que “a geografia prefigura a história”. Enxergava, quem sabe, através das lentes transfiguradoras da emoção. Diante dele descortinavam-se os sertões bravios, inóspitos, em sua imensa perspectiva. Daquele relevo deveria surgir, com certeza, um povo forte como as pedras e renitente como a caatinga.
No entanto, essa perspectiva euclydeana, como toda perspectiva que se preze, era apenas uma parte da verdade, compreendendo-se que a verdade está na soma de todas as perspectivas. Hegel já postulava que, “a verdade completa inclui todas as perspectivas”. Por sua vez, Ortega y Gasset afirmava que “a perspectiva se aperfeiçoa pela multiplicação de seus termos”.
Soma, inclusão, multiplicação de perspectivas. A verdade é total e geométrica: a nosso ver, Srs. Poetas, a verdade é esférica. E disso falaremos em lugar oportuno. Dilatemos, por enquanto, o pensamento, tomando a frase euclydiana sob outros olhares. Senão, vejamos:
Marx, grosso modo, enxergava as condições econômicas como a base de todo o processo histórico.
Já Schelling via, no mito, o alvorecer da história.
Ainda no mito, nos arquétipos, Carl C. Jung buscava a compreensão da alma humana.
Cada um desses sábios observadores, com peculiares lentes de aumento, mirava a o homem e sua trajetória, sob um particularíssimo prisma. Todavia, devemos atentar para o provérbio árabe, que, com líquida e cristalina sabedoria, aconselha cautela diante das certezas humanas, pois “a água toma a cor de seu recipiente”, como dizia certo Ibn Sina, também chamado entre nós, Avicena. Por isso, ao situar e adjetivar esses tão graves substantivos, deveríamos fazer-lhes uma singela pergunta:
— Geografia, Mito, Economia, História, de quem e para quem?
A resposta deve surgir quase que unanimemente:
— Do homem e para o homem. Para o agente da história, o sujeito, o ser pensante.
São, portanto, circunstâncias da vida humana. Circum-stantia! Realidades abstratas ou concretas, que forçosamente se radicam na vida de um homem. Vetores de sua instalação no mundo. De modo que se situam em campos vetoriais contíguos, mas distintos: de um lado, a geografia e o mito. De outro, a economia e a história. Aos primeiros denominaremos vetores aórgicos, e aos segundos, por oposição, de vetores órgicos.
Para a compreensão adequada dos primeiros, voltemos no tempo. Regressemos ao dia inaugural da criação:
Quando nada havia no Éden, dizem as Escrituras Hebraicas, (só para citarmos aquela que nos fala mais de perto), que o Espírito de Deus, Elohim, “pairava sobre a face das águas”. Depreende-se dessa descrição genesíaca, que, nesse instante eterno e remoto, já estava a Geografia, tomada aqui pelo elemento Acqua, H²O. Havia também o Mito, narrado pelo escritor, divinamente inspirado, como sendo Javé, o criador de todas as coisas. Estavam lá, Geografia e Mito, segundo a Torah, bem antes da criação do primeiro ser pensante, daquele que daria nome às coisas: o Adão.
Lá estava, naquele sítio pré-adamico, no mundo das coisas inominadas, o Mito Primordial.
Em sua obra mor, Mensagem, Fernando Pessoa, o maior poeta da língua portuguesa, vaticinava: “o mito é o nada que é tudo”. Deus é esse Tudo, o Aórgico Absoluto, Aquele que sempre esteve lá, no Antes, no Nada Original, no Indizível, no Mistério Inicial. Estava lá também a Acqua, nossa primeira geografia, mãe de todas as outras geografias e dos seres viventes. Mãe da espécie humana, pois é a mãe do barro e dos elementos químicos. Desses elementos, o Mito ergueria o Vir, o primeiro patriarca, e sua mulher, Eva.
A geografia é pois o aórgico primacial, ou seja, aquilo que derivou Daquele que “por não ter vindo foi vindo e nos criou”.
Os outros vetores, economia e história, vivem irremediavelmente ligados, em franco contubérnio. A economia, aqui entendida à flor da sua superfície, enquanto fator da busca humana pela solução de seus básicos e primevos problemas: alimentação, utensílios, habitação, ferramentas, armas e túmulos; só viria a existir imbricada com a ação do homem, ou seja, com sua biografia individual e, por extensão, com sua história coletiva. Consideraremos, então, a economia e a história, como vetores siameses e órgicos.
Cabe agora, uma pequena digressão sobre o pensamento que fundamenta essas minhas proposições. Decorrem, essas pobres especulações, da releitura que venho fazendo da verdadeira revelação filosófica, que é a obra desse desconhecido filósofo brasileiro, Vicente Ferreira da Silva, aqui denominado o Anunciador do Aórgico.
“O aórgico – dizia Ferreira da Silva- é o não posto pelo homem, é o que não se apresenta como resultado da produtividade artístico-criadora do sujeito”.
Ora, direis, — e eu ratifico o que estareis a pensar —, que só não havia sujeito artístico-criador, ou ser pensante, (excetuado o próprio Criador), como acima afirmamos, nas regiões edênicas e pré-adamicas, na eternidade que antecedeu a aparição do primeiro homem. Portanto, aórgicos, creio serem a geografia e o mito, essas testemunhas do dia inaugural, aspectos dionisíacos da divindade.
Vale ressaltar, e já concluo esse delírico discurso, que, como anunciava Ferreira da Silva “o Mito é, em substância, Poesia”. Poesia transumana, poesia-em-si. Não a poesia escrita, sujeita à elaboração individual, mas poesia com vida transcendente, poesia enquanto potência divina. É Ferreira quem nos revela essa, ubérrima e singular, Protopoesia. Essa fabulação mitológica, que deve ser o fundo último das teogonias dos vários povos do globo. Deve-se, pois, buscar nessa poíesis, nessa poesia das matrizes míticas, as puras possibilidades do que na História é realizado.
Nessa oracular filosofia ferreiriana, cujo fulcro é a idéia da protopoesia, evidencia-se a reinterpretação da mitologia como ‘poesia em si’ e matriz inexaurível da realidade.
A partir disso, pode-se agora entender aquela emoção euclydeana com a geografia da região de Canudos, como um mergulho no aórgico. Ou seja, a vertigem de um escritor urbano, atingido pela força daquela paisagem desértica, altaneira, e jamais tocada pela ação despótica do homem. Seria também da mesma intensidade a comoção dionisíaca que sentiu o autor de Os Sertões, em outra de suas viagens pelo Brasil, ao deparar-se com a imensa floresta amazônica: um estremecimento diante da imagem fascinante do aórgico, do não posto pela ação humana. Sua obra magistral seria, por esse prisma, fruta dessa reinterpretação do telúrico e aórgico rincão nordestino, pelo que nele há de mitológico e fundador da realidade.
O mesmo se pode dizer da obra de Ariano Suassuna que versa sobre a Pedra do Reino: uma reinterpretação sertaneja e armorial do messianismo ibérico, com a vertiginosa fundação de um universo mítico. Dessa obra citarei um dístico de certo Carlos Dias Fernandes, citado por Quaderna, que afirma que “os livros são condensações psíquicas das nacionalidades a que pertencem”.
Caberia aqui só um reparo à citação daquele aventuroso personagem: Não é qualquer livro que é capaz dessa condensação psíquica. Somente as grandes obras. Além dos dois, citados acima, só obras da envergadura de um Dom Quixote, de Cervantes, de um Grande Sertão – Veredas, do Rosa, do Avalovara, do mago Osman Lins, ou ainda, da sublime e majestosa Mensagem, do poeta-mor da última flor do Lácio. Bilac? Ora, diríeis. E eu vos respondo: Sem embargo do valor da obra do grande parnasiano, não é de Olavo que vos falo, e, sim, do gênio português, o Sr. Fernando Pessoa.
Para concluir essa peroração, que já se alonga por demais, indico-vos, pois, jovens poetas, dessa cidade-das-pedras-que-seguram-o-mar, o caminho embriagador da Protopoesia, da entrega amorosa às forças oníricas, à ondulação da vida, da geografia enquanto epifania numinosa dos deuses. Se quiserem escrever sobre essa urbe fluvial, enveredem pelas suas matrizes míticas, pelo que nela há de aórgico e de ancestral. Busquem uma Mitopoese antes de uma História. Lá nascerá o homem, o herói angustiado e só, entre temores e tremores. Subam aos arrecifes nas noites das grandes ressacas de agosto. Deixem-se arrastar pela força das enxurradas, nas enchentes das várzeas do Beberibe e do Capiberibe. E durmam ao relento numa baiteira em noite de tempestades sobre o manguezal. Corram nus, pelas margens enlameadas, como caranguejos de andada sob o ribombar dos trovões. Sintam medo, sintam pavor, mijem-se e caguem-se, ao fulgir dos raios e relâmpagos que derribam os altos coqueiros nas praias desertas da Ilha das Cabras. Ali também estarão os elohins, os odins, os vulcanos, os oguns, tupãs e todos os elementais, pois os deuses são também brasileiros e habitam, ab origine, o delta de nossos rios. Ave! Shalom! Saravá! Alah-Hu-Acbar! Viva Deus, que pequeno sou eu! (...)
(seguem-se aplausos e assobios da jovem platéia!)