segunda-feira, 2 de agosto de 2010

XXX – WAIA'MU






Tábua de Marés
Baixa-mar # 8h36
Horológio Waia’mu




...Sai, vagarosamente, da loca lamacenta, montado sobre seus cinco pares de patas ambulatórias, o velho e gordo Waia’mu. Emerge, o imenso Uçá, das raízes enlameadas da rizophora mangle. O sol, ainda tímido, rebrilha em sua carapaça de um azul intenso. Ergue, num movimento plácido e solene, a imponente cefalotórax, e espia, cauteloso, toda a extensão da margem da maré. Mexe os olhinhos robóticos, como que fazendo uma varredura em campo minado. Hesita. Vacila. Simula algumas passadas para trás. Depois, com rigor de ordem unida, começa a locomover-se sobre seus dez tentáculos cabeludos. Uma após outra, vai enfiando suas patas de unhas pontudas, nos lugares mais firmes da lama. Os pequenos apêndices situados atrás dos seus maxilares movem-se, a esmo, antenas escatológicas, captando o lixo orgânico. O Uçá balança sobre os detritos, espumeja e saboreia, coprofágico, a escória humana. Baba de prazer, ingerindo os excrementos.

...Assim, o velho e gordo Waia’mu reinicia, com resignada sabedoria, o milenário ciclo vital dos habitantes da maré...




►alea índex


►LIII

domingo, 1 de agosto de 2010

XXIX - MITOPOÉTICA




"Se quiserem escrever sobre essa urbe fluvial, enveredem pelas suas matrizes míticas, pelo que nela há de aórgico e de ancestral. Busquem uma Mitopoese antes de uma História. Lá nascerá o homem, o herói angustiado e só, entre temores e tremores. Subam aos arrecifes nas noites das grandes ressacas de agosto. Deixem-se arrastar pela força das enxurradas, nas enchentes das várzeas do Beberibe e do Capiberibe. E durmam ao relento numa baiteira em noite de tempestades sobre o manguezal. Corram nus, pelas margens enlameadas, sob o ribombar dos trovões, como caranguejos de andada. Sintam medo, sintam pavor, mijem-se e caguem-se ao fulgir dos raios e relâmpagos que derribam os altos coqueiros nas praias deserta da Ilha das Cabras. Ali também estarão os elohins, os odins, os vulcanos, os oguns, tupãs e todos os elementais, pois os deuses são também brasileiros e habitam, ab origine, o delta de nossos rios. Ave! Shalom! Saravá! Alah-Hu-Acbar! Viva Deus, que pequeno sou eu!”   (Jöhan Linz)




Depois daquele dia, no Clube Franz Post, em que ouvi o memorável discurso do Mestre Johan Linz sobre a Protopoesia, criei coragem e resolvi escrever essa coisa caótica e fragmentária, assim mesmo, de meu jeito.
Euclydes da Cunha, primeiro, Ariano Suassuna depois, enveredaram pelos Sertões, cada qual a seu modo, porém movidos, os dois,  dizia o Mestre Linz, pela mesma “grandeza majestática da árida paisagem sertaneja”.
Decidi também enveredar, a meu modo, com “as lentes transfiguradoras da (minha) emoção”, pelo não menos inóspito e dramático universo do meu Mangue interior. Interior porque não se trata apenas do mangue que vejo, que via: as rizophoras esverdeando o estreito horizonte; os palafitas fincados nas margens do rio.
Mangue interior porque é mais que isso que os olhos percebem.

Não se trata apenas de buscar uma enarrativa na geografia do manguezal, no relógio lunar das enchentes e vazantes da maré, no ar carregado de maresia... Trata-se de desencravar a história anteriormente prefigurada nessa geografia. Ou melhor, mergulhar na intra-história que jaz na alma dessa gente ribeirinha, que é o verdadeiro lócus geográfico de onde brota, funda e inconsciente, a lenda coletiva, a mitopoese da maré:


“...Jaz a Noite Imensa sobre o mangue...
A cidade surge antes,
das enchentes, das vazantes,
fundação amorfa, sem face, vazia...”


E como se vão sondar essas raízes intra-históricas sem lhes descobrir as matrizes míticas?
Haverá mito na maré?
Ouvir-se-á aqui o arfar da Onça-parda suassuna?
Algum monstro anfíbio resfolega à flor das águas?
Um elohim?
Um orixá?
Um rei defunto que regressa?

Só lama e gente: a raça piolhosa dos homens, diria Quaderna.


***


O manguezal, Mestre. Essa é a minha única saída para o universo, minha efabulação, minha mitopoética...
Mas, insisto, que mitopoética se ergueria dessa paisagem enlameada da maré?
Jamais a mitológica estirpe sertaneja de Bel-monte. Enlouquecida, mas, régia e solene. Onde encontrar aqui as armas e os brasões armoriais, os ferros heráldicos com que lá se marcam os bois, as herdades, os retábulos, as crenças, a fé?
Entre os mocambos, apenas seres enlameados, furtivos homens-caranguejos, escondem-se, encovam-se, assustados crustáceos. Nada neles é majestoso e forte. Neles não há uma epopéia.


No entanto, quem sabe, os tetranetos de Canudos, arribados daquele sertão euclydeano, tenham vindo aportar às margens do Rio Pina, do Rio Tejipió. Com eles devem ter vindo as imprecações, as chagas, as rezas e os gemidos da caatinga; com eles, toda uma mitologia soterrada em suas almas, em seus corpos; com eles, a subterrânea e funda mitopoética dos aboios, dos repentes que ouviram por lá.
Toda essa intra-história campesina, egressa do sertão, irá aflorar, como ilhotas à flor d’água, em anônimas biografias (manguesinas?).
***
As luzes são dos coriscos do sertão, mas o que ecoa é o ribombar trevoso dos trovões, na escuridão da Ilha-sem-Deus.

Evoé! Tupã vive!


►alea índex


XXVIII◄

XXVIII - ATELIÊ






...Anteontem, depois de ter lido e relido, várias e demoradas vezes, a carta do afamado beletrista, Dr. Abdenego M. de Souza, resolvi ir até o ateliê do Mestre Jöhan Linz. Estava deveras perturbado. Não imaginava – santa ingenuidade! – que a minha obra seria tão destratada. Pus-me a caminho do ateliê, ruminando essas coisas. Era de tarde e o sol ainda estava alto. Procurava, como de costume, a proteção das ruas ensombreadas da Boa-vista. O Mestre já havia mudado do velho endereço da rua dos Prazeres, 50. Alugara um sobrado antigo e espaçoso na Leão Coroado. Ficava no 1º andar e tínhamos de subir uma escadaria de madeira. Não havia ainda a campainha e nós gritávamos bem alto da calçada em frente. Eu e o Mestre andávamos tão sintonizados que muitas vezes ele punha a cabeça na janela antes mesmo que eu o chamasse. Dizia que percebia meus fluidos ao longe. Nunca liguei muito pra isso. Mas hoje estou mais próximo de crer. Minha mente está em um estado próximo dos êxtases místicos. O estado de numinoso jungueano.

Era talvez por esse tipo de ligação que eu estava indo procurar o Mestre naquela tarde. Precisava de alguém que me ajudasse a fazer uma sincera autocrítica. Causou-me um choque a carta do eminente doutor. Tantos meses de trabalho. Dura rotina diante de uma máquina de escrever. Dores nas costas e outras algias incômodas. Meses de pesquisa. E como é difícil a pesquisa de um autodidata! É um tal de procurar aqui e ali. Escreve pra um. Aborda outro nos congressos, nos vernissage, palestras. Uma luta! Pra depois...isso. Uma crítica demolidora! Aviltante! Conversar com o Mestre me faria bem. Ele sabia como ninguém levantar o nosso astral. Era uma grande alma! Um mahatma! Seu pensamento esferista me abria a mente. A ele, de certo modo, devia a sustentação teórica de meu trabalho. Embora não fosse escritor, suas meticulosas argumentações sobre a arte me moviam a pena. Era plural, o velho bruxo da Boa-vista. Era, como ele mesmo gostava de dizer, esférico...

-- Porque tu falas tanto na morte em teus textos, Jorge? A morte é apenas uma passagem para outra instância. Como uma mudança de estado na matéria. Somos imperecíveis, meu amigo. O ser é indestrutível. Nada verdadeiramente se destrói. Tudo está mergulhado no transformismo fenomênico. Falas de uma entidade que não tem existência em si mesma.

-- Mas eu não falo da morte em meus textos, Mestre. Pelo menos diretamente. Tudo o que faço, penso ou escrevo, busca algo que está na morte e que, no entanto, não é a morte. Minha linguagem é a economia-do-medo-de-findar-no-sem-sentido. Em todos nós habita, de algum modo, esse projeto, secreto e inútil.


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►I (Jorge)

XXVII - LEÕES ZUMBINDO






Manhã de segunda-feira.
Cruzo a ponte Maurício de Nassau, distraidamente. Vou ruminando o insólito Recife osmaniano que acabei de ler:

"A caminho da Delegacia Fiscal, atravesso a Avenida Rio Branco e vejo uma aglomeração perto da ponte Buarque de Macedo. Automóveis e ônibus arrastam-se em marcha lenta. Ouço comentários esparsos na esquina do Niágara... há um corpo estendido sobre o calçamento do cais do Apolo. De que morreu? Sabe-se quem é? Um desconhecido, o rosto coberto por jornais. Suicídio ou acidente?"

Afasto-me pensativo a caminho do cais do porto. Leões osmanianos zumbem entre os sobreviventes apressados. Zumbem leões dentro de mim.







► XXVIII

► alea índex

► XXIX

XXVI - A PROTOPOESIA


(falação etílica e inflamada de Jöhan Linz, em certo Congresso de Poetas)



Srs. Poetas,


(...) Estava, decerto, movido e comovido pela grandeza majestática da árida paisagem sertaneja, o escritor Euclydes da Cunha, quando pontuava que “a geografia prefigura a história”. Enxergava, quem sabe, através das lentes transfiguradoras da emoção. Diante dele descortinavam-se os sertões bravios, inóspitos, em sua imensa perspectiva. Daquele relevo deveria surgir, com certeza, um povo forte como as pedras e renitente como a caatinga.
No entanto, essa perspectiva euclydeana, como toda perspectiva que se preze, era apenas uma parte da verdade, compreendendo-se que a verdade está na soma de todas as perspectivas. Hegel já postulava que, “a verdade completa inclui todas as perspectivas”. Por sua vez, Ortega y Gasset afirmava que “a perspectiva se aperfeiçoa pela multiplicação de seus termos”.
Soma, inclusão, multiplicação de perspectivas. A verdade é total e geométrica: a nosso ver, Srs. Poetas, a verdade é esférica. E disso falaremos em lugar oportuno. Dilatemos, por enquanto, o pensamento, tomando a frase euclydiana sob outros olhares. Senão, vejamos:
Marx, grosso modo, enxergava as condições econômicas como a base de todo o processo histórico.
Já Schelling via, no mito, o alvorecer da história.
Ainda no mito, nos arquétipos, Carl C. Jung buscava a compreensão da alma humana.
Cada um desses sábios observadores, com peculiares lentes de aumento, mirava a o homem e sua trajetória, sob um particularíssimo prisma. Todavia, devemos atentar para o provérbio árabe, que, com líquida e cristalina sabedoria, aconselha cautela diante das certezas humanas, pois “a água toma a cor de seu recipiente”, como dizia certo Ibn Sina, também chamado entre nós, Avicena. Por isso, ao situar e adjetivar esses tão graves substantivos, deveríamos fazer-lhes uma singela pergunta:
— Geografia, Mito, Economia, História, de quem e para quem?
A resposta deve surgir quase que unanimemente:
— Do homem e para o homem. Para o agente da história, o sujeito, o ser pensante.
São, portanto, circunstâncias da vida humana. Circum-stantia! Realidades abstratas ou concretas, que forçosamente se radicam na vida de um homem. Vetores de sua instalação no mundo. De modo que se situam em campos vetoriais contíguos, mas distintos: de um lado, a geografia e o mito. De outro, a economia e a história. Aos primeiros denominaremos vetores aórgicos, e aos segundos, por oposição, de vetores órgicos.
Para a compreensão adequada dos primeiros, voltemos no tempo. Regressemos ao dia inaugural da criação:
Quando nada havia no Éden, dizem as Escrituras Hebraicas, (só para citarmos aquela que nos fala mais de perto), que o Espírito de Deus, Elohim, “pairava sobre a face das águas”. Depreende-se dessa descrição genesíaca, que, nesse instante eterno e remoto, já estava a Geografia, tomada aqui pelo elemento Acqua, H²O. Havia também o Mito, narrado pelo escritor, divinamente inspirado, como sendo Javé, o criador de todas as coisas. Estavam lá, Geografia e Mito, segundo a Torah, bem antes da criação do primeiro ser pensante, daquele que daria nome às coisas: o Adão.
Lá estava, naquele sítio pré-adamico, no mundo das coisas inominadas, o Mito Primordial.
Em sua obra mor, Mensagem, Fernando Pessoa, o maior poeta da língua portuguesa, vaticinava: “o mito é o nada que é tudo”. Deus é esse Tudo, o Aórgico Absoluto, Aquele que sempre esteve lá, no Antes, no Nada Original, no Indizível, no Mistério Inicial. Estava lá também a Acqua, nossa primeira geografia, mãe de todas as outras geografias e dos seres viventes. Mãe da espécie humana, pois é a mãe do barro e dos elementos químicos. Desses elementos, o Mito ergueria o Vir, o primeiro patriarca, e sua mulher, Eva.
A geografia é pois o aórgico primacial, ou seja, aquilo que derivou Daquele que “por não ter vindo foi vindo e nos criou”.
Os outros vetores, economia e história, vivem irremediavelmente ligados, em franco contubérnio. A economia, aqui entendida à flor da sua superfície, enquanto fator da busca humana pela solução de seus básicos e primevos problemas: alimentação, utensílios, habitação, ferramentas, armas e túmulos; só viria a existir imbricada com a ação do homem, ou seja, com sua biografia individual e, por extensão, com sua história coletiva. Consideraremos, então, a economia e a história, como vetores siameses e órgicos.
Cabe agora, uma pequena digressão sobre o pensamento que fundamenta essas minhas proposições. Decorrem, essas pobres especulações, da releitura que venho fazendo da verdadeira revelação filosófica, que é a obra desse desconhecido filósofo brasileiro, Vicente Ferreira da Silva, aqui denominado o Anunciador do Aórgico.
“O aórgico – dizia Ferreira da Silva- é o não posto pelo homem, é o que não se apresenta como resultado da produtividade artístico-criadora do sujeito”.
Ora, direis, — e eu ratifico o que estareis a pensar —, que só não havia sujeito artístico-criador, ou ser pensante, (excetuado o próprio Criador), como acima afirmamos, nas regiões edênicas e pré-adamicas, na eternidade que antecedeu a aparição do primeiro homem. Portanto, aórgicos, creio serem a geografia e o mito, essas testemunhas do dia inaugural, aspectos dionisíacos da divindade.
Vale ressaltar, e já concluo esse delírico discurso, que, como anunciava Ferreira da Silva “o Mito é, em substância, Poesia”. Poesia transumana, poesia-em-si. Não a poesia escrita, sujeita à elaboração individual, mas poesia com vida transcendente, poesia enquanto potência divina. É Ferreira quem nos revela essa, ubérrima e singular, Protopoesia. Essa fabulação mitológica, que deve ser o fundo último das teogonias dos vários povos do globo. Deve-se, pois, buscar nessa poíesis, nessa poesia das matrizes míticas, as puras possibilidades do que na História é realizado.
Nessa oracular filosofia ferreiriana, cujo fulcro é a idéia da protopoesia, evidencia-se a reinterpretação da mitologia como ‘poesia em si’ e matriz inexaurível da realidade.
A partir disso, pode-se agora entender aquela emoção euclydeana com a geografia da região de Canudos, como um mergulho no aórgico. Ou seja, a vertigem de um escritor urbano, atingido pela força daquela paisagem desértica, altaneira, e jamais tocada pela ação despótica do homem. Seria também da mesma intensidade a comoção dionisíaca que sentiu o autor de Os Sertões, em outra de suas viagens pelo Brasil, ao deparar-se com a imensa floresta amazônica: um estremecimento diante da imagem fascinante do aórgico, do não posto pela ação humana. Sua obra magistral seria, por esse prisma, fruta dessa reinterpretação do telúrico e aórgico rincão nordestino, pelo que nele há de mitológico e fundador da realidade.
O mesmo se pode dizer da obra de Ariano Suassuna que versa sobre a Pedra do Reino: uma reinterpretação sertaneja e armorial do messianismo ibérico, com a vertiginosa fundação de um universo mítico. Dessa obra citarei um dístico de certo Carlos Dias Fernandes, citado por Quaderna, que afirma que “os livros são condensações psíquicas das nacionalidades a que pertencem”.
Caberia aqui só um reparo à citação daquele aventuroso personagem: Não é qualquer livro que é capaz dessa condensação psíquica. Somente as grandes obras. Além dos dois, citados acima, só obras da envergadura de um Dom Quixote, de Cervantes, de um Grande Sertão – Veredas, do Rosa, do Avalovara, do mago Osman Lins, ou ainda, da sublime e majestosa Mensagem, do poeta-mor da última flor do Lácio. Bilac? Ora, diríeis. E eu vos respondo: Sem embargo do valor da obra do grande parnasiano, não é de Olavo que vos falo, e, sim, do gênio português, o Sr. Fernando Pessoa.
Para concluir essa peroração, que já se alonga por demais, indico-vos, pois, jovens poetas, dessa cidade-das-pedras-que-seguram-o-mar, o caminho embriagador da Protopoesia, da entrega amorosa às forças oníricas, à ondulação da vida, da geografia enquanto epifania numinosa dos deuses. Se quiserem escrever sobre essa urbe fluvial, enveredem pelas suas matrizes míticas, pelo que nela há de aórgico e de ancestral. Busquem uma Mitopoese antes de uma História. Lá nascerá o homem, o herói angustiado e só, entre temores e tremores. Subam aos arrecifes nas noites das grandes ressacas de agosto. Deixem-se arrastar pela força das enxurradas, nas enchentes das várzeas do Beberibe e do Capiberibe. E durmam ao relento numa baiteira em noite de tempestades sobre o manguezal. Corram nus, pelas margens enlameadas, como caranguejos de andada sob o ribombar dos trovões. Sintam medo, sintam pavor, mijem-se e caguem-se, ao fulgir dos raios e relâmpagos que derribam os altos coqueiros nas praias desertas da Ilha das Cabras. Ali também estarão os elohins, os odins, os vulcanos, os oguns, tupãs e todos os elementais, pois os deuses são também brasileiros e habitam, ab origine, o delta de nossos rios. Ave! Shalom! Saravá! Alah-Hu-Acbar! Viva Deus, que pequeno sou eu! (...)
(seguem-se aplausos e assobios da jovem platéia!)

XXV – ÔIO AZUL






...ACOCORADA junto à margem do rio Pina, a saia rota presa entre as coxas, Maria do Ôio Azul enfia as mãos na lama escura. Pequeninos crustáceos amarelos fogem rapidamente de suas locas. Algumas garças pescadoras pousam sobre os arbustos do mangue. Dia ensolarado. Não se vê uma nuvem, sequer. Dona Maria, encandeada, fecha os olhos e enxuga a testa com o dorso da mão. Pensa nos netinhos que ainda não voltaram da rua.

“Devem de estar perambulando pela cidade, em vez de vir trabalhar pra me ajudar com o de comer.”

Arruma o pano que traz amarrado na cabeça. Alguns fios de cabelo, precocemente esbranquiçados, descem pela sua testa suada. Não é uma mulher de idade avançada, anda aí pelos quarenta anos, mas já alquebrada pela vida dura de catadora de caranguejo e pelas doenças da maré. O trabalho dos netos era incerto. Pouco ajudava. Era um frete, aqui, a guarda de um carro, ali. Biscates. Na maior parte do dia, esmolavam ou lavavam pára-brisas nos sinais da Avenida Boa Viagem. Do marido não esperava muito. O álcool lhe havia tirado a firmeza das mãos e nem pra consertar redes de pesca ele servia mais. Andava a catar papelões pelas ruas, puxando uma velha carroça, improvisada sobre uma caixa de geladeira. Bem, já era uma ajuda! Na maré, só ela mesma agüentava o tranco. Depois que os filhos morreram ainda lhe ficaram os netos por criar. Essa não era a vida que queria.
Beirava os quarenta anos, ainda era forte e bonita. Negra, quase cafuza, Maria era desejada pelos pescadores da Colônia Z-1. Dizem que, no tempo em que o marido vivia bêbado, deitava-se furtivamente com um amante. Gemidos lúbricos, nos barcos atracados no estaleiro da Ilha do Felipe. Mas essas são daquelas coisas que se dizem, mas não se provam. Senhora de seus dotes físicos, Maria lamentava o infeliz acidente que lhe roubara um pouco a formosura do rosto, motivo do inconveniente apelido que tanto a envergonhava. Até hoje não entende como aquilo foi acontecer: abanava o fogareiro em que fritava uns peixinhos, quando aquela faísca de óleo fervente saltou sobre seu rosto. Nem teve tempo de aprumar o corpo e esquivar-se.

“Foi um grito só! Uma dor tão grande que parecia que estavam enfiando uma faca de ponta no meu olho. Saí correndo pelos becos da ilha, feito uma louca. Todos os barcos grandes estavam no mar. Procurei Pedro Antonio pra me levar na baiteira até o Pronto Socorro de Afogados. Encontrei o cachorro caído na lama, cheio de cachaça... Num deu tempo. Por causa disso perdi o olho e ganhei esse apelido horroroso. Já viram uma negra com olho azul? Pois o meu ficou assim, azulado. Num presta mais pra nada!”

***

Não prestava mais pra nada, o marido. Era um bom homem. Mas a fraqueza nas mãos, a cachaça, num sabe? Não podia mais consertar redes de pesca, nem estar ali com ela, enfiar as mãos na lama, levando mordidas de caranguejo nos dedos. Seu Levi, dono de barcos, estava cansado de chamá-lo para o trabalho:

"Se não pode ir pro mar alto, conserta redes, homem! Todo dia chega barco com rede rasgada", gritava ele na porta do barraco, enquanto piscava o olho, querendo alguma sem-vergonhice com dona Maria. Dizem que o velho é portuga, e que esse povo é tarado por mulher negra.

A netinha mais nova aproximou-se com o balaio de caranguejos. Assustada com o reboliço dos bichos no caçuá, a pequenina veio choramingar perto da avó.

"Arreda daqui! Parece com o pai, que num prestava pra nada. Morreu doido de maconha, aquele vadio!" Esbravejou, irada, lembrando de um dos filhos.

Maria já não agüentava aquela vida miserável. Queria mesmo era sair daquela ilha nojenta. A mãe tinha enviuvado e, fugindo da seca no sertão do Pajeú, Belmonte, aquela terra de fanáticos e de miséria,veio embora para o Recife, arrastando a ela e aos cinco irmãos mais novos. Buscava melhores dias. Morreu pedinte, sua genitora. Sem eira nem beira. Mas nunca desistiu de lutar. Maria, como a mãe, sonhava em melhorar na vida. Quem sabe ir morar em São Paulo, cidade grande e progressista. Nem precisava ser tão longe. Podia ser ali, no outro lado, no Pina. No Bode, mesmo. Na Rua Encanta Moça, já servia. Perto de ônibus, lotação, feira... salão de beleza. Ah, como gostaria de entrar em um daqueles que tem porta de vidro. Fazer as unhas, raspar o solado dos pés, lavar o cabelo. Sonhava com isso. Seu Levi prometeu... no fim do ano lhe daria um vestido novo! Mas, de que adiantava vestido com aquelas mãos encardidas de lama? Pensava nessas coisas enquanto buscava a menina com o canto do olho perfeito. A netinha tinha de ter outra vida. Nem que para isso fosse fazer zona. É isso mesmo. Até a zona era melhor do que a vida da maré. Vejam as filhas de dona Santinha como se deram bem. Uma delas, Neném, morena forte, bunda grande, uns peitões, num instante arranjou um velho gringo. O homem endoidou por ela. Dizem que ela sabia fazer tudo com ele na cama. “E gringo não pode ver uma menina assim, safada, que quer logo casar.”
Magricela tinha de aprender tudo isso. “Melhor dar o rabo do que viver enterrada na lama,” resmungava.

Ergueu-se, as pernas doídas. “Isso é lá vida?” Não iria permitir que a menina crescesse na Ilha. O avô nem ligava. Se a neta desse pra puta ou não, ele nem estava aí! Se duvidasse ele seria o primeiro a tentar boliná-la! Cruz credo! Uma menina de sete anos? Pois, se não fosse a sua vigilância, ele já teria feito como Seu Zé de Lau, que forçou as duas filhas e as botou no mundo. Pelo avô, a menina já nem seria mais virgem. “Aquele canalha.”
Mas, deixa estar, jacaré, breve essa lagoa há de secar! Maria levanta os olhos, busca alguma coisa naquele mundão de lama. O Sol está a pino sobre a Ilha-sem-Deus. Nem sombra dos meninos! Hão de ficar pela rua hoje. Arrasta a menina pelo bracinho franzino e, com o caçuá na cabeça, a água suja dos caranguejos escorrendo pelo rosto, dirige-se para o barraco.
"Espero não achar o velho estendido no chão, de porre. Hoje eu faço uma besteira. Jogo um balde d’água em cima dele. Eu que me importa se ele for embora. Num serve mais pra nada... Só vive de catar papéis no lixo. Já estou cansada dele e da vida nessa ilha ‘miseráve’..."


XXIV – TRÍBIOS

...Conversávamos sobre telepatia, pré-cognição e o tempo tríbio freyriano. Serpa Lopes desenhava “Sob o Céu de Van Gogh”. A voz do Mestre ecoava na ante-sala fenestrada. Éramos eternos. Ou estávamos sendo:

***

“a eternidade não está fora da vida presente, mas nela mesma, quando alcançamos a identidade de nossa essência e nossa existência, numa alegria e num amor duradouros, na compreensão e aceitação daquilo que somos: modos da substância divina, forças em expansão, agentes da história e não pacientes dela. A eternidade nada tem a ver com tempo, mas é ausência de tempo...”

***

...e assim perpassa a minhalma, essa obra, essa coisa textual, quase têxtil, quase tessitura, de aranha, bicho da seda...
...ou atravessa-me feito um rio subterrâneo, percorre-me secretamente; flui, silente, ora em finíssimo filete d’água, às vezes, caudaloso, rio atemporal, desliza, heraclitiano, em seu leito volátil.
...o que há em mim de passado é líquido, água lodosa, barrenta, lamacenta...
...rio, regato, córrego, canal, rego, paul: o que há em minha lembrança é fluvial...

...ah!...pequenino rio Triângulo, sinuoso Jequiá, , escondido rio Jordão...ai, Tejipió inolvidável e Pina das marés... que se espraiam na planície de minhalma, onde encontram as lagoas encantadas do delta do Capibaribe...

...íncolas de Afogados, ilhéus do Nogueira, do Leite, do Retiro, olham-me, olhos úmidos, pretéritos, tríbios, freyreanos, eu mesmo um ser aquático, anfíbio, a olhar-me dentro, isso que verto, verbo, jorra de mim, água salobra, insalubre, essas palavras enlameadas, eu...lírico, líquido, eu mesmo em mim...



►XXV

►alea índex


XLIX◄