quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Sagitariana - notas clandestinas sobre Marília Spencer nº 1




Seu codinome: Marília Spencer.

Fazia política com amor. Fazia do amor sua política.

Quando nos encontramos o Sol estava em Libra. Mas a nação não estava em período de justiça.
Ascendia ao poder a direita com toda a sua força reacionária. Misturavam fé, falso moralismo e truculência. Os anos eram de chumbo.

Eu já passava dos 50. Ela ainda não chegara aos 30. Mas, podem acreditar que a adulta entre nós dois era ela. Corajosa militante de esquerda. Um extremado senso de justiça. Séria e calada. Sua timidez só cessava com algumas doses de cachaça.

Comecei essas notas clandestinas por conta de seu sumiço. A ausência e a saudade provocam uma dor estranha, que certo amigo poeta chamava de o abraço no vazio. Segundo ele, só conseguia escrever, quando compungido por essa angústia do desabraço e da perda do ser amado.

Acredito que toda a literatura séria vem da angústia. Não creio em boa literatura quando é feita só por diletantismo e para o entretenimento.

Sobre Marília, tenho algumas considerações

Nascida sob sagitário, trazia marcas no corpo e na alma. Umas alterações de humor que a faziam mudar de tom em poucos segundos. Mas quando amava era intensa e leal. Não é comum nas sagitarianas a infidelidade. Isso dizem os astrólogos. O que, no entanto, não se deve levar ao pé da letra. Os astros também são instáveis.

Desde menina, sentia uma forte atração por homens mais velhos. Bem mais velhos. Anos depois, surgiria a famosa novela de Gabriel Garcia Marquéz, em que um nonagenário e uma ninfeta se apaixonam mutuamente, numa linda e insólita história de amor. Essa novela me trouxe a lembrança dos bons momentos vividos com aquela jovem militante.


Obs.:
Essa nota, que vai com o número 1, transcende a estrutura deste Bóstrix e pode ser dispensada a sua leitura, sem embargo do nexo, se há um nexo, nesse romance experimental.
(Jorge Cabral de Lima Neto)


quinta-feira, 5 de agosto de 2010

LXIV – INTRA-HISTÓRICOS (1)

ou primeira meditação sobre a renitência dos despossuídos




PEDRO ANTONIO é um desses intra-históricos. Vive mergulhado em seu cotidiano. Passa todos os dias, cedo de manhã, em minha rua, rotina invariável, ao sol ou à chuva, arrastando a sua carroça-de-mão. De manhã, passa vazia, leve, rápida. À tardinha, lá vem ele, vagaroso, os fardos de papelão mal-arrumados, ferro-velho, latinhas espragatadas. Passadas lentas e olhos baixos, como a procurar algo no chão. Todo dia passa aqui no meu portão. Todo dia nos saudamos com as mesmas palavras, quase mecanicamente. Ouço o ranger das rodas nos eixos da carroça. Observo as rugas que já tomam seu rosto envelhecido.

Anoto, todo dia, essas coisas em um caderno. Há muitos anos venho fazendo isso. Estamos enredados na mesma teia. Na mesma tessitura. Ele, recolhendo os seus papéis do lixo. Eu, rabiscando essas notas que um dia vão ser lixo também. Somos parte de um círculo, de um circo, de um misterioso jogo de espelhos circulares. Um recolhe lixo, outro, apontamentos. Fluxo e refluxo da mesma maré de eventos.




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IX◄


▲ Epilogo?

LXIII - ZÉ-NINGUÉM

(...) Atentem para essas expressões:

cidadãos comuns, massa ignara, multidão anônima, populares, massa de manobra, e outras correlatas.

Falácias, bazófias, é o que são.
Arrancam do povo, do comum dos mortais, o direito à sua originalidade, à sua autenticidade enquanto indivíduos, e os jogam na vala comum dos zés-ninguém. Isso já é, em si, uma monstruosa manipulação urdida por certos ideólogos da cultura dominante, dos condutores das mentes videotas, dos sofistas da post-modernidade.

Infelizmente o povo não ouviu Nietzsche, quando anunciava a chegada de um certo monstro das botas envernizadas. Uns interpretam esse monstro nietzcheano como sendo o Estado, esse ente abstrato que se imiscui em nossas vidas, nos invade e nos priva de qualquer possibilidade de liberdade.
Contudo, esse assombroso ser é bem mais sutil e peçonhento. Chama-se Kitsch:
Veículo ideal da ideologia dominante;
Enformador de gostos e tendências caricatas;
Massificador dos subprodutos de culturas alheias;

Considero o Kitsch, instrumento ignóbil do imperialismo ianque, como o mais terrível pulverizador da reserva cultural e da espontaneidade dos homens genuínos que habitam em todas as partes desse lado ocidental de nosso planeta azul.
Acautelai-vos... eis que ele ronda a nossa maneira de ver o mundo, a nossa arte, a nossa vida...(...)

.......................(fragmento de discurso do Mestre Linz no Clube Franz Post)



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LXII - KOIMITERIUM







Apesar da sombra benfazeja desses oitizeiros, jambeiros, mangueiras; arvoredo secular de aparência tão grave e imponente quanto a dessas edificações neo-clássicas onde abunda o mármore de Carrara; apesar disso não gosto, nunca gostei, de entrar aqui. Desprezo esses funcionários municipais, cabotinos, com ar fingidamente respeitoso, reverência mal-disfarçada, hálito de aguardente. Se eu pudesse nunca entraria nesse lugar. Tudo aqui me deprime. As flores ficam tristonhas nesses quartinhos contíguos e mal-asseados. Desolados e desoladores os cortejos atravessam o pátio arborizado. Os mais velhos persignam-se defronte da capela de Santo Amaro das Salinas. Um dos cortejos caminha em meu encalço, mas sem muita pressa, andar pausado e grave no átrio silente. O silêncio amplifica cada ruído. Piam bem-te-vis nas copas dos oitizeiros. Ouve-se um choro de mulher carpindo. Jogam-se flores sobre a terra revolvida de uma escavação recente. O que irão semear nessa abertura? Meu pai pede a pá ao funcionário de macacão azul. As pessoas começam a atirar, solenemente, uma após outra, várias pás de terra fértil sobre os cravos quase murchos. Estranha semeadura! Ouço uma voz familiar lendo um de meus mais tristes poemas... afasto-me compungido por entre as árvores frondosas. Tento conter as lágrimas quentes. Lágrimas fundas e purificadoras.
Do lado de fora desses átrios a cidade ruge. Rumores da vida lá fora me chegam da praça que há ao lado. Taxistas e floristas conversam sobre o tempo. Os ônibus, superlotadas esperanças, atravessam ruidosos a avenida da Saudade. Hoje é terça-feira nessa cidade das pedras que seguram o mar. Meus amigos e parentes mais humildes voltam pra casa a pé. Meu nome está nos corações saudosos.
Quem diria? Domingo ele esteve comigo no ateliê. Eu senti que ele não estava bem. Subiu as escadas mais devagar do que sempre. Dirigiu-se ao sótão, cabisbaixo. Um silêncio de impressionar. Pouco depois desceu, ainda calado. Pediu-me um café. Falou-me de uns originais recusados por uma editora. Estava meio ressentido com um certo beletrista. Despediu-se de forma estranha. Levava consigo um saco plástico cheio de papéis, que imaginei serem os seus manuscritos. Vi, de relance, meio escondida, uma garrafa de álcool.

-- Pra que esse álcool, Jorge? Não me vá fazer nenhuma loucura.

Não respondeu. Desceu lentamente as escadas e seguiu na direção do mercado da Boa-vista. Depois disso não mais o vi.

...A notícia chegou-me através de uma tia, que mora aqui perto, nos Coelhos.






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LXI - DISCURSO FLUVIAL








A reiteração dos temas ao fluir desta narrativa espiralada não passa de um mero reflexo do que há em derredor:

a vida cíclica dos homens do mangue,
feito as enchentes e as vazantes
de um mar que some,
de um mar que avança.

Não há nisso nenhum recurso estilístico, e sim, o ritmo ancestral das marés, esse relógio lunar que rege a vida nessa cidade anfíbia.





► LI


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LX - D’ANTAS






TÁBUA DE MARÉS
Baixa-mar #08h36 - #21h00





A descida dos tupis do planalto continental no rumo do Atlântico foi uma fatalidade histórica pré-cabralina, que preparou o ambiente para as entradas no sertão pelos aventureiros brancos, desbravadores do oceano.
A expulsão, feita pelo povo tapir, dos tapuias do litoral, significa bem, na história da América, a proclamação de direito das raças e a negação de todos os preconceitos.
Embora viessem os guerreiros do Oeste, dizendo "ya so Pindorama koti, itamarana po anhatim, yara rama recê", na realidade não desceram com a sua Anta a fim de absorver a gente branca e se fixarem objetivamente na terra. Onde estão os rastros dos velhos conquistadores?.
Os tupis desceram para serem absorvidos. Para se diluírem no sangue da gente nova. Para viver subjetivamente e transformar numa prodigiosa força a bondade do brasileiro e o seu grande sentimento de humanidade. Seu totem não é carnívoro: Anta. É este um animal que abre caminhos, e aí parece estar indicada a predestinação da gente tupi.

............................................................................................................................................(Manifesto da Escola da Anta)







DANTAS, esse é o nome da família de minha mãe. Herança longínqua dos paraibanos, numa época em que tudo por aqui era ainda província de Pernambuco. Os tupis, dizia meu avô materno, consideravam muito as capivaras, também chamadas de anta ou tapir. E esse rio era o habitat natural de centenas, milhares, delas. Daí o nome, Ribeira das Capivaras: Capibaribe.
Usava apenas o CABRAL, sobrenome paterno. A razão disso nunca me ocorrera antes. Mas, ao ler o Manifesto da Escola das Antas, compreendi o que se ocultava sob esse uso inconsciente. É que a família Dantas, mais bronzeada e morena, seria absorvida, como de fato aconteceu, pela gente branca, dos Cabral de Lima. Sou o subproduto dessa fusão: um sarará.

Às vezes, estou mais cabralino do que das antas. E, por isso, vejo o rio disforme, cão sem plumas, com viu, bem ou mal, o Cabral mais famoso: o poeta. Não me refiro ao Cabral, invasor de Pindorama, dito descobridor. Aquele encontrou águas limpas, potáveis. João, o poeta, não beberia dessa água.
Também não bebo dessa fonte. Não sou nhengaçu. Tampouco antropófago. Mas, tenho sim, uma porção d’antas, que se deixa absorver pelo opressor, para sobreviver, subvertendo, subliminarmente, a lei e a ordem.
Assim, miscigenada, sincrética, parece ser apolítica, essa minha porção d’antas. Entanto, vai destilando o seu veneno intra-histórico nas veias do conquistador. Submete-se, vagarosamente, ao vencido o vencedor. É que a intra-história, renitente, vence pelo cansaço. Transforma, primeiramente, os costumes, invade a culinária, as crenças e, mais tarde, subverte a Língua. Esse é o aperto final da boiúna intra-histórica. Primeiro mói, tritura, depois engole o idioma do opressor. Fingindo submissão, solapa os alicerces da cultura alienígena.

***

(morreu galego?)

***

"Cadê o galego que assi ledo no paaço,
pedio vinho e fruita e lançouse a dançar?
"

***


Marília dizia-me, que, ao invés disso, o oprimido introjeta, patologicamente, o opressor. Aplaude, hipnotizado, a tirania do algoz. Por isso alguns retóricos ufanistas chamavam os portugueses, cinicamente, de “os desbravadores do oceano”.

"Escravocratas, genocidas, invasores cruéis: talvez essas palavras sejam mais apropriadas, dizia-me ela, indignada.

Diante dessa mulher ensolarada, ativa e militante, eu me sentia acuado, feito uma anta diante de medonha e parda onça suassuna. Nesses instantes afloravam os Dantas, os abridores de caminho, os resignados, que em mim habitam há séculos, intra-historicamente.

Quando faço o mea culpa pelo que aconteceu na DOPS, essa reflexão sobre meu totem não-carnívoro, a Anta, ajuda-me a diminuir o meu desassossego. (Ou alimenta o meu cínico remorso?). Publiquei, naquela ocasião, a minha abjeta declaração de não-comunista, safando-me da polícia política. Não me safei, porém, da minha consciência.

Contudo, de que adianta essa fingida paz exterior, se para chegar a ela, recorro a racionalizações tão metafóricas quanto inúteis: capivaras, antas, tapires? Agrada-me, apesar dos pesares, exprimir essa verdade. Nunca fui mesmo comunista. Nem qualquer outra coisa do tipo. Sempre abominei os ismos, embora me interessasse pelo anarquismo. Um anarquismo moderado, bem sei: não-violência, cooperativismo, auto-gestão. Jamais adotaria a fúria anarquista dos estudantes de Paris, em 1968. Sou pacífico, cordato, conciliador. Uma Anta!

O que Marília, mulher valente e militante, via tanto em mim, pra tanto bem-querer?




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LIX - BATE-ESTACAS







...Faz-se um silencio sepucral. Mestre Linz abre a agenda em sua primeira página. Todos entreolham-se curiosos e reverentes. A sombra do Mestre projeta-se, gigantesca, na cumeeira. Ouço um dobrar de sinos. Há uma igreja aqui perto? Desabam sobre mim as palavras do Mestre, marteladas, as palavras, retumbam em uma bigorna. Caem pesadas, as palavras. Pancadas de aldrava em nossos tímpanos. A dútil voz do Mestre rasga uma trilha no silêncio. Ecoam as palavras, minhas palavras, dentro de minhas recordações. Façam-no parar! Não me façam reviver essas dores. Estão surdos? Não quero ouvir isso! Nesse instante, ouve-se lá fora um bate-estacas. Escuto, aliviado, o bate-estacas. Breve erguerão um novo prédio no terreno baldio defronte à casa de meus pais. Ouço o ruído das máquinas. Ruídos modernos da vida. Eh, mundo lá fora cheio de vida! Vozes álacres crianças jogando bola, buzinas, o pio das aves! Salve os ruídos do mundo! Mundo and roll! Pedras rolando! Rumores, canos-de-escape, locomotivas, pedreiras, soam sirenes, cargueiros, mundo lá fora rugindo, ciciando, estrugindo, ferreando! Invadam-me sons do mundo! O bate-estacas enterra estacas em minha alma. Sou um terreno baldio de mim mesmo em frente à casa paterna. Ritmado, o bate-estacas bate estacas. Ritmada, a voz do Mestre recitando. Por favor, parem com isso. Por favor, ninguém me ouve?...




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► LX

LVIII - SARAPATEL






Memorandum


De: Aprendiz

Para: Mestre


Mestre, estou escrevendo uma coisa. Não sei em que gênero essa coisa se encaixa, nem preciso saber. O que necessito mesmo é escrever. Um romance, um memorial, um mosaico, um calidoscópio. Algo que iniciei depois de ler uma notícia, anos atrás, num exemplar de revista de ciência popular. Falava de metatextos. Algo que surgiria com o advento dos comentários à Torah, coisa que eu já procurava há muito tempo e que a descoberta de Rayuela veio definitivamente resolver. Estou montando um calidoscópio textual. Um mosaico de virtualidades. Um imenso mural, com sons e imagens, feitas com palavras. Um caldeirão, uma feijoada de textos polifônicos, sinfônicos, harmônicos... essa coisa que apelidei de Bóstrix N’água ou Apontamentos Esféricos. Isso que lês agora, esse texto esquisito que tens debaixo dos olhos. Isso. O que vem a ser isso, Mestre? Um sarapatel?






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►LXIII

LVII – DEUS




Aguardo uma baiteira que me levará ao outro lado da maré. Iremos à Ilha-sem-Deus. Sem Deus parece ser toda essa região:

“Barracos,
aos cacos,
fincados na lama do mangue,
são farrapos de sonho
molhados na água insalubre...”

A lama preta tinge os homens, os olhos dos homens, a alma dos homens sem Deus.
Deus?
Certa feita, um velho burgomestre, influenciado pelo Clero, tentou mudar o nome da ilha.

Batizaram-na Ilha-de-Deus.


Deus?
Corre um menino esquelético pela lama. Deus? Seus ossos arfam de fome.

Deus?
Não sei se pela contradição estampada no extremo desamparo dos habitantes da Ilha, ou se devido à morosidade da tramitação do processo de mudança do nome na edilidade, até o dia de hoje ela ainda continua sendo chamada de Ilha-sem-Deus.

***


Segundo a Proposição XIV, da Ética Demonstrada à Maneira dos Geômetras, de Benedictus Spinoza,

“Afora Deus, não pode ser concebida nenhuma substância.”

Enquanto polia pacientemente as lentes de uma luneta, o nosso pensador excomungado ia abrindo os nossos olhos:

“Tudo o que existe, existe em Deus, e sem Deus nada pode existir.”
(Proposição XV)

Através dessa luneta translúcida, Spinoza revela seu monismo totalizador. Nele, tudo é Deus e Deus é tudo.


Acorre-me logo à mente a idéia (um tanto ou quanto, capciosa, reconheço) da presença de Deus nos excrementos, no monturo, na carniça: tudo, tudinho, é Deus! É impossível para o Absoluto criar algo fora de si. Nada pode viver ou existir, autonomamente, sem Deus ou fora Dele. Existir fora de Deus é a absurda negação dos atributos divinos da onipotência e da onipresença.


Portanto, toda miséria, toda dor, toda maldade é Deus. Por outro lado, é Deus também todo prazer, toda alegria e toda bondade.


Contudo, meu bom Spinoza, uso, nos olhos da alma, uma lente distorcida, diferente da tua lente ética e geométrica. E ouso afirmar, diante de tanto abandono e miséria nessa ilha flagelada, fincada no manguezal do Rio Pina, que há um lugar fora Dele:


UMA ILHA de purgação para prometeus famintos;

lugar de expiação para os seres que ousam existir fora da substância divina.




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LVI - CENTOPÉIA





...Com os remos levantados, a baiteira segue mansamente a correnteza do rio. Daqui, já se avistam, enfileirados à margem, os primeiros casebres da Ilha.

São pedrinhas de um dominó desencontrado que se escoram umas nas outras, buscando um equilíbrio sem prumo e sem esquadro.

O casario foi sendo construído, paulatinamente, ao longo de muitos anos, com retraços de madeira, zinco e plástico, maquete da universal e distorcida arquitetura dos guetos miseráveis. Um improvisado ancoradouro, erguido sobre caibros raquíticos, patas de uma estranha centopéia, avança pela lama da maré.

Esquivando-se por entre as patas enlameadas deste inseto surreal, meninos esquálidos enterram suas mãozinhas, pele e osso, na terra mole e escura. Buscam mariscos, pequenos crustáceos, caranguejos. A vida resiste em seu ciclo renitente! Por sobre as suas cabeças passa, num vôo rasante, um bando de pardais. Aves, meninos e crustáceos lutam pela sobrevivência em um mesmo habitat.

***

A voz do barqueiro vem me tirar dessas reflexões:

"Esse é um trecho muito raso e acidentado. A fábrica de rum lançou essas pedras nas margens. Os donos iriam construir uma espécie de dique. A fábrica foi fechada e as pedras ficaram assim, com a metade submersa. Ali, viram? Só podemos nos aproximar na maré alta e, mesmo assim, dando várias voltas, até encontramos o ponto ideal para a atracação. Barcos maiores nem se arriscam a chegar até a Ilha. Só se chega até lá nessas pequenas baiteiras."

***

Dando várias voltas, disse-nos o experiente barqueiro.
Essa singular forma de nos aproximarmos da Ilha, a paciência desses volteios, me trouxe à mente o que dizia Ortega y Gasset, em suas famosas Meditações do Quixote. Discorria ele sobre a melhor maneira de abordarmos, com a necessária (e pouco usual) profundidade, a obra prima de Cervantes:

“Essa obra genial tem que ser tomada como Jericó. Em amplos rodeios, nossos pensamentos e nossas emoções devem estreitá-la lentamente, sonorizando trombetas ideais.”

Também abordaremos essa Ilha-sem-Deus, voluteando sem pressa, sem urgência, em amplos círculos de atenção, traçados pelo pensamento. Não é essa, porventura, uma ilha labiríntica, nascida da cavilosa imaginação de algum engenhoso arquiteto, como aqueloutra, a mítica ilha de Teseu. Não é também cria dos sonhos dos homens, sendo mera efabulação?

***

De pé sobre as águas, ergo uma trombeta imaginária. O barqueiro deixa, sabiamente, que a correnteza do rio Pina conduza a nossa frágil embarcação...

Volvamos, pois, nossa atenção para o curso das águas. Delas, é algo para todos corrente, há de nascer essa história...





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◄XVII

LV – POMBA GIRANDO







Naquela noite, descobri, surpreso, tua pluralidade. Havíamos bebido muito. Era uma apresentação folclórica no Pátio de São Pedro. Danças africanas, afoxés, maracatus, coisas assim... Tu estavas encantada com aquele baticum. De repente a tua face, habitualmente serena, sofre uma metamorfose. Tua tez morena fica avermelhada. Teu cabelo já negro torna-se mais negro do que a noite. Da ponta de tuas orelhas surgiram duas enormes argolas zíngaras. Brilhavas, vestida a ouro e ébano.

Então começaste a gargalhar estranhamente. Dançavas entre as mesas do pátio. Dança flamenca, cigana. Uma das mãos segurava a barra da saia; a outra, erguida, balançava um imaginário pandeiro. Dançavas e rias. Rias e dançavas. Perplexo, vi quando derramaste cerveja sobre um dos fregueses do bar. Tudo estranho, muito estranho para uma mulher centrada e realista. Já não eras mais tu mesma. Alguém agia em ti. Uma outra personagem te possuía. Outra mulher, mais vulgar e debochada, girava com teu corpo.

Naquela noite descobri a outra, a terceira. Não te bastavam duas vidas: Marília/Mariana? Havia em ti uma lúbrica cigana. Aquele teu materialismo dialético sucumbia perante os ancestrais de África. Freud já não te explica, Mulher. Talvez Jung explicasse melhor essa tua surpreendente mitopoese...




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LII ◄

LIV - CÍRIOS






Os círios à minha dextra quase se apagam. Alguém, sacando um isqueiro, acendeu cada um, reverentemente. A pequenina chama tremeluziu, frágil, fugaz. Nós todos naquela saleta tremeluzíamos, frágeis, fugazes. Meu pai aproximou-se de mim, fugaz e frágil. Seu hálito familiar: já tomou uma! Beijou-me a face, coisa rara em seu Cabral. Não era dado a carinhos comigo. Não que não me estimasse. Fazia-me notar seu amor de outras maneiras. Era um abraço, um tapinha nas costas. Mas, beijinhos só nas meninas, Elaine e Dinéia. Eu era o machinho da casa. Ah, seu Cabral, por que não me beijou em outro momento? Mamãe se aproxima de nós com o meu Mestre do lado. Meu Deus, vão ler mesmo a agenda. Pra que reler esses poemas?

“Incumbimos dessa leitura o Doutor Jöhan Linz, pela proximidade que tinha com o nosso Jorge...”





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XXX ◄

LIII - VÉUS E NUDEZ






Mamãe achou a agenda verde. Meu Deus! Não estava com ela! Devia tê-la queimado. Não gostaria que todos aqui soubessem de seu conteúdo. Pra que recordar essas bobagens? Poemas, velhas anotações para um romance esferista, planos de obras nunca acabadas, minha guerra sem testemunhas, minhas coisas: minha nudez. Essa agenda realmente me desnuda. Um poeta se veste de palavras para ficar mais nu, dizia o Mestre. E tinha toda a razão. Véus ou nudez, a Palavra? indagava-me, certo dia, o poeta Getsêmane Barros, entre cervejas, no bar da Algaroba. Hoje, impotente diante dessa agenda em mãos alheias, chego à conclusão que procurávamos. Véus e nudez, a Palavra, Getsêmane, véus e nudez...


As alunas do Mestre Linz chegaram, trazendo rosas amarelas. Dizem que simboliza a amizade. Os artistas-plásticos gostam desses detalhes. Simpáticas e esteticamente perfeitas essas rosas, formando uma circunferência amarelo-ouro, solar. Circunferências lembram-me sempre as nossas fecundas discussões sobre o Esferismo. Deliciosas conversas etílicas nas tardes da Boa-vista. Sempre achei o Esferismo muito parecido com o Perspectivismo de Ortega y Gasset. Mas achava indelicado sugerir isso ao nosso generoso e sexagenário Mestre Jöhan Linz. Bons tempos...mas o grupo Esferista se dispersou. O Getsêmane depois que mudou pro Ibura, anda meio sumido. O Zenóbio e seus Fractais, quem viu? O Serpa Lopes, figura esguia e quixotesca, já o vi pelos cantos da casa, Poliana chorosa. Concha, sempre calada. As colegas da Faculdade também chegam, trazendo rosas nas mãos. Lembram-me os funerais do Claudionor: dei uma rosa vermelha a cada uma delas. As rosas ficaram sobre seu túmulo, inúteis. Mas que assunto triste é esse agora? E por que vocês estão me olhando desse jeito?





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XXXI ◄

LII - CICATRIZES






Alguém sugere a leitura de algum de meus poemas. Mas, os poemas...Eu os queimei. Vocês não sabiam? Perguntem ao Mestre. Foi anteontem. Estava em uma crise depressiva.. Pensando mesmo em desistir disso tudo. Então fiz uma fogueira lá atrás do Mercado da Boa-vista. Não foi, Mestre? Talvez tenha ficado algum dentro da velha agenda verde. Creio que essa agenda perdeu-se. Ou ficou com ela? Tive vontade de queimá-la, mas não a achei. Uma agenda pode ser algo cortante. Reabre cicatrizes. Abrir uma agenda é desejar viver o que já passou. E aquela era uma agenda feita de sonhos, doridos sonhos. Devia mesmo era ter queimado essas lembranças...






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► LIV

LI - CODINOMES







“(...) uma só saliva e um só sabor de fruta madura,
e eu te sinto tremular contra mim
como uma lua na água.”
(J. Cortázar, in Rayuela)



...E, como toda circunstância se nomeia, ela trazia um nome entre seus nomes: Mariana.
Não sei se era o de batismo, pois lhe inverteram o nome e com ele, a ordem da vida.

Verdadeiramente, ela e seus nomes se misturariam com as cartas zíngaras de um baralho. E, em nossas vidas, esses nomes, estilhaços de espelho, ocultariam fantasmas. Reis, valetes e coringas estavam acoitados em um coração cigano que batia falso entre seus nomes.

Veio com um cortejo de espectros que encontraria o meu. Sem identidade, mas viva em minhas entranhas de poeta, ela se nomeou. E, nesses cacos espelhados que uns chamam versos, ela se construiu.

***

Após penetrá-la, entre doce e prazeroso, ela me fez a clássica e, de certo modo, desusada, indagação sacerdotal:

– O Sr. Jorge Dantas Cabral de Lima aceita a senhorita Mariana, Manaíra, Amirana, Maraína, e outros nomes e faces em cascata... também chamada na clandestinidade por Marília Spencer, como sua legítima... amásia?

– Sim, respondeu o cavalheiro, ainda em ereção dentro de sua fenda, lúbrica e acolhedora.


Aí começariam meus equívocos. Paixão e catarata cegam se não cuidadas a tempo, diria minha avó...

***

Nesses dias de tua ausência, Marília, uma coisa me vem à mente, repetidas vezes. Antes de tua fuga do Brasil, eu só te vi uma única vez. E foi essa a derradeira. 

Naquela tarde, eu te penetrei pela primeira e última vez. 

Como pudemos estar juntos por tanto tempo e só nos amamos físicamente, uma única vez? 

Eram as tuas urgências de militante. Eram as tuas fugas no meio da noite. O amor não suporta a repressão. Retornarás um dia, amiga? 

É nessas horas tristes que lembro as tuas leituras de Nietzsche. O mito do eterno retorno. A ideia de que tudo há de se repetir por toda a eternidade é tão bizarra, quanto incômoda. 

Cada gesto, cada fato, toda a nossa vida biográfica, na mesma sequencia e ordem e do mesmo modo há de se repetir, dizia Marília, com um brilho estranho nos olhos! 

Se isso for um imperativo, como nos sentiremos, diante da vida?

Se cada momento de dor e de prazer irá se repetir eternamente, somos livre ou escravos dos nossos atos? 

Nietzsche nos fazia uma provocação, ao perguntar: queres mesmo viver isto inúmeras vezes? 

Se um fato acontece uma única vez e não se repete mais, torna-se menos grave, menos trágico e nos torna livres. Mas se depois do ato, tivermos a certeza do eterno repetir-se, não seremos escravos de cada gesto? 

Marília lia em voz alta A Gaia Ciência. Eu, deitado na cama, ouvia a sua voz, num alumbramento. Pensar que a tua fenda úmida abrigou meu meu membro ereto, por uma única e última vez, dá-me uma saudade angustiante. Mas se esse mesmo momento, fugaz e sensual, tiver de se repetir eternamente, não sei o nome do sentimento que me toma. Saudade do amanhã?

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►LV

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

L – TARRAFA


















Horológio
Tábua de Marés
Preamar # 14h48



RECOSTADO na mureta da Ponte Velha, estático, os olhos vivos fitando a flor d’água. Lá embaixo, o rio desliza: a água serena, a maré cheia.

Cingindo o seu antebraço, amarrada entre a palma da mão esquerda e o cotovelo, a corda central que sustém a rede circular. A armadilha, coniforme, penduleia, rente à sua perna. A água escorre pelas pequenas chumbeiras.

Atento, imóvel, arma o bote, recostado à ponte. A brisa sopra a maresia e ele espera, instintivo como uma fera. De repente, zás!

Arremessa a rede, flor aberta sobre a superfície das águas. A corda, áspide longilínea, escapa-lhe das mãos, serpeando no ar. A malha, enfim explode n’água. E submerge, rapidamente, cilada repentina. Some nas águas do rio, a flor, bela e maldita, a flor, bela e letal... Submerge, sob o peso dos grãos de chumbo na tralha inferior.






►alea índex


XLVII◄

XLIX - LENTES





(...) palpar com a pupila
a pele das coisas (...)
Ortega y Gasset




...Pretendo também alargar os limites do visível. Não é vanguardismo. É necessidade. Preciso, desesperadamente, chegar ao mundo. E, chegar ao mundo, disse um pensador moderno, é tomar a Palavra, transfigurar a experiência em um universo do Discurso.

...Por isso busco imagens com você, Marília. Não procuro a Verdade, nem a Mentira. Não sou filósofo. Sou poeta. Busco, contigo, a superabundância de realidade. Se a meio caminho encontro abelhas, flores e carneiros, se me deparo com um maravilhoso pássaro de seis asas, pouco importa! Contigo, Marília, profanarei o sagrado e consagrarei o profano. Contigo emergirei do mar, peixe-de-asas, num salto inesperado e cheio de riscos. Saltarei na vida! Colherei tuas surpresas com arrebatamento. Furarão meus olhos, os albatrozes, com seus bicos vorazes? Enxergarei então pela lente de tua câmara fotográfica. E não recuarei. Recuar é tornar ao oceano de mediocridade.


...Então, repito, não quero explicar o mundo. Quero confundi-lo. Trago em meus olhos fogo e dissensão. Ouso imitar o Mestre e atritar as palavras até fazer saltar delas chispas de fogo, que incendeiem as consciências. Se os tentáculos da aranha tentam me sufocar, “já não me calo, mariodeandrademente, esperneio, grito. Tanto ridicularizariam meu silêncio quanto esta grita.” Jorra, genesíaco, da minha garganta, o sangue de Abel. Vejo o casebre soterrado. A saga dos bombeiros. A morte, Marília, nos chega tão gelada nesses videotapes. Escondem-se os culpados, nessas reportagens.

Apontem-se os culpados!

Somos nós, Jorge.

Nós?

Sim. Nós e a nossa indiferença. Impassivelmente, tropeçamos em cadáveres nas calçadas. Estamos enredados no tecido dessa aranha: meninos-de-rua, prostitutas, aposentados, favelados, mendigos, nanicos vindos do sertão. Todos ilhados pela nossa indiferença, nosso desprezo. Somos culpados. Culpados por omissão.

Engasgo-me com uma golfada de sangue de Abel. Eis o sangue de meu próprio irmão! Minha voz sangra, nesses textos!

Há poesia, Marília, nessas palavras cobertas de papelão, de zinco, sacos de lixo? Que figuras de linguagem moram debaixo das pontes?

Consultem-se os acadêmicos. Eu não sou capaz de responder. Tudo o que pretendo é alargar os limites do visível. E desvelar o que é, hoje, invisível aos nossos olhos. E, nessa peleja, só conto com você, Marília, e com suas lentes transfiguradoras da emoção.

...Sem você, camarada, nada poderia ser dito. Nada mesmo!


***

FOTO N.º 1
Espragatados
(INSERIR: Rendição de Canudos/foto Euclides da Cunha)


CANUDOS

De onde escorrem
essas figuras líquidas?
Deslizam,
Pairam,
movem-se no ar...

Buscarão, caladas, a geometria do caos?
Aonde vai esse esse cortejo?
Quo vadis?

 Seguem a ordem inversa,
O pó dos sonhos
E adentram ao mundo absoluto...





CIDADE SITIADA



Sobre as colinas ao teu redor,
brotam favelas e o ódio cresce.
De lá te espreitam as tuas vítimas.
Enquanto danças na orgia
Do selvagem capital,
Te embriaga a vinhaça
o CO2, a fumaça;
Tocaiam os enjeitados: negros, mulheres, crianças...

▬ Tu danças e o tempo passa...
o tempo passa e tu danças... ▬

Breve a cruenta vingança
Dos operários famintos
Das putas mais sifilíticas
Dos trombadinhas lanzudos
(descenderão de Canudos?)

Breve, ó mãe dos burgueses ricos,
Uma legião de nanicos,
Vinda do alto sertão,
Fará a Grande Invasão:
Desce o Arraial dos Palmares
Que agora habita nos morros de tua periferia;
Desempregados e loucos (já escuto seus gritos roucos!),
Os quilombolas modernos,
Zumbis saídos do mangue ▬ sem-terras vindo do inferno,
Virão ceifar-te com sangue,
Armados até os dentes, com enxadas e picaretas,
Peixeiras e canivetes,
Foice-e-martelo, ...marretas.
Saquearão teus mercados, teus bancos, tuas mansões.
Farão trincheira em teus templos, alucinados de fé
E, enlouquecidos de fome, derribarão teus quartéis.

***

Um Condor gritou nas praças
É tempo de ouvir sua voz.
Se calam a voz do povo...
▬ POETAS, GRITEM POR NÓS!



Jorge Dantas Cabral de Lima Neto
(um clamor contra o sistema!)



►alea índex


II◄

XLVIII - MÁSCARA






...Sento-me à escrivaninha. Trabalho como se vertesse gesso sobre um rosto para fazer-lhe uma máscara. (Mortuária?). Mas essa máscara se parece muito com a minha. O gesso, enquanto escrevo, refresca-me a face.

***

Jorge impacienta-se com as palavras, esses bichos escorregadiços que lhe escapam sempre. Levanta-se da mesa de trabalho e vai até a janela. Lá fora, o sol adeja sobre os tetos do bairro do Pina. Os velhos telhados, telhas retangulares, formam um estranho tablado, de onde emergem, vez por outra, as caixas d’água de amianto escurecido. Algumas parabólicas e espinhas-de-peixe apontam para o céu como se fossem campanários de capelas pós-modernas.

Parece um imenso tabuleiro de xadrez, pensa Jorge, imagetizando.

Apreciava o Xadrez tanto quanto o Quaderna apreciava o Baralho. Talvez por isso o mundo (lhes) pareça uma mesa e a vida um jogo, onde se cruzam Reis, Peões e Rainhas, governados pelas regras milenárias deste jogo real. Entretanto, distanciavam-se, ele e o genial rapsodo de Taperoá, no capcioso jogo literário. Jorge queria uma crônica não-epopéica. Nada de burgueses ou fidalgos. Nada de estilo régio ou pomposo.

Apesar de irreligioso, Jorge havia feito essa opção preferencial pelos pobres.

O Sol derrama-se, raios cristalinos, taça de champanhe, pelo céu azul; brilha, branco de espuma, sobre o areal; lateja sobre o lendário trapiche de André Luís Pina; brinca nas folhas novas do manguezal; repousa nas copas das árvores que ainda restam no terreno da antiga fábrica de rum; depois, vai saltitar com os pivetes, na praia do Cano.

Da varanda oeste de sua casa, Jorge vê, ao longe, os quintais cheios de vida da Rua Encanta Moça. Coqueirais, pés da fruta-pão, cajuais. Vida, verde, vida! Por que então pensar na morte? De onde me surge essa idéia esquisita de máscara mortuária? Eis um verbo difícil de ser conjugado: morrer. E, nessa manhã de sol então, é um inteiro despautério. Reanimado, volta à máquina de escrever:

-- Um d-e-s-p-a-u-t-é-r-i-o! resmunga o professor Jöhan Linz, sentado em sua espreguiçadeira.O velho mestre esferista está lendo os jornais do dia, no alpendre de seu sobradão colonial, às margens do açude de Apipucos. (ou, encruzilhada dos caminhos, como ele costuma chamar o bairro onde reside, aludindo ao sentido da palavra em tupi-guarani).
O Mestre sempre acorda cedo. Antes mesmo que os galos e o sol, vai ao quintal e conversa com suas aves de estimação: guinés, gansos, marrecos, pavões. Chama-os com sua voz mansa, timbre de mel de uruçu: tiss, tiss, tiss! Enquanto lança no ar, fartamente, grãos de milho, porções de avevita. Faz isso todas as manhãs. Diz que é um hábito franciscano. Embora não seja católico, diz que isso é um agrado que faz ao santo. Depois, sobe ao alpendre. Suas sandálias rasgam, secas, o silêncio de madeira do assoalho. Um ruído curtido, de couro. Recebe os jornais das mãos do caseiro e se esparrama na velha cadeira de balanço. Lê, um por um, todos os jornais recifenses.
-- Um despautério sem tamanho! reclama, lendo, na Seção de Cartas do Diário, uma, de seu amigo, o livreiro Melquisedec.
-- Um descaso com nossos buquinistas. A praça do Sebo virando um mictório público ao ar livre! Tem razão o meu amigo Melq. Isso não pode acontecer com a cultura recifense! pensa, em voz alta, como se estivesse dirigindo aquelas palavras ao caseiro, que ri, acostumado aos arroubos do Mestre.



***


...O Mestre fecha o jornal, aborrecido. Acaba de lembrar de um compromisso. O Instituto Franz Post, voltado para a preservação do acervo holandês em Pernambuco, (Mestre Linz é descendente dos batavos), vai homenageá-lo pela dimensão que tomou o movimento Esferista nos círculos culturais da cidade. Fala-se, à boca miúda, que o Esferismo tem provocado ciúmes até nos Armoriais, tal a importância de suas façanhas nas artes e na literatura. Acusam-no,  na certa, por inveja ou despeito , de movimento apolítico e alienado. Coisas que sempre se diziam dos que não mergulham de cabeça na luta contra o regime.

Mesmo os Armoriais receberam essa pecha, amigo Jorge. contemporizava o Mestre Linz, que não levava a sério o que propagavam da sua teoria.

***

Dizia-me, o Mestre, que suas idéias, inicialmente, se prestavam apenas para dar sustentação à sua produção artística e que jamais havia aventado a possibilidade de fundar movimento ou escola. A coisa fugiu ao seu controle depois de ter feito um discurso aos poetas, dito marginais, do ‘maldito’ Beco da Fome.

***

O Mestre não fazia acepção de pessoas. Onde havia público lá estava ele a discutir idéias. Nunca fugia a um bom debate e apreciava o convívio com os jovens artistas da cidade. Aquele discurso no Beco foi a centelha que provocaria o incêndio. Os ‘marginais’ da poesia trataram de propagar as idéias “daquele velho maluco e boa praça” pelos becos e vielas da cidade maurícia. Falavam de uma tal protopoesia associada à busca da intra-história, em que se negavam, ao mesmo tempo, a literatura e a história tradicional. Julgavam que o ‘holandês maluco’ era comuna, nietzcheano e ateu. Um verdadeiro sarapatel intelectual. Um pré-tropicalista, talvez, como o Jomard, o Mautner e o Tom Zé.
Despertariam, com essa efervescência juvenil, os olhares da imprensa alternativa e, com ela, a vigilância da insidiosa polícia política, a DOPS.

Em busca dessas novidades, a esquerda e a direita recifense acorreriam ao Clube Franz Post, naquela manhã.




XXV◄


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XLVII - CORBEILLES







Mandam-me flores. Coroas-de-flores, cravos, rosas, flores perfumadas, corbeilles. Meus pais as recebem sem a alegria de quem recebe flores. Alguns dos que as trazem conversam baixinho pelos cantos da casa.

Mas,...foi por causa dela? Ela era apenas mais uma entre tantas na vida do Jorge. Uma entre tantas? Tento retrucar. Ninguém me ouve. Não. Ela não foi apenas uma mulher. Foi a afirmação de minha fragilidade como homem, de minha limitação enquanto pessoa. E não pensem que isto que digo (será que me ouvem?) trata-se apenas de autoflagelação. Não. É pura constatação de fatos. Ela surgiu nessa história em um momento incomum. Veio ao encontro de um processo que evoluía dentro de mim. Não era apenas Mulher. Era Signo. Trazia Cabala. Guardava, em suas mãos franzinas, o Destino. Não era apenas Mulher, mas Sortilégio.

Mandam-me, os parentes e amigos, muitas flores, coroas. Coroai-me de rosas, como na Grécia, dizia o poeta português. Coroai-me de rosas – rosas que se apagam em fronte a apagar-se tão cedo! Coroai-me de rosas e de folhas breves. E basta...




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XLVI - ANIMA






Os olhos vazados de minha mãe. Lembrança ruim: cuidava da enorme palmeira do quintal da casa de Tejipió, quando um dos talos, uma haste esverdeada, espetou-lhe o olho esquerdo (ou foi o direito?). Era danada pra se acidentar, Dona Joana. Outro dia prendeu o dedo na espreguiçadeira do terraço. Foi um Deus nos acuda! Ainda bem que morávamos na rua do Pronto-socorro. De casa ouvíamos as sirenes nervosas das ambulâncias chegando e saindo. Era uma correria como essa: a mesma pressa e o mesmo nervosismo. Pra que tanta correria, minha gente? O pior já passou. Nunca gostei de pressa. Nada para mim era urgente. Isso desde a meninice.


Tempo bom, o da meninice: tardes bucólicas com cantar-de-galos, sítios com mangas no Sancho... rio do Paul, rio Triângulo, -- piabas e traíras, águas tranqüilas --, passavam lentos pelas campinas-hoje-favelas. Tantas lembranças agora, por que? Parece até que um filme de minha vida rola, instantâneo, diante de meus olhos. E essa ambulância que não pára de correr? Será que não alcancei meu objetivo? Dezessete andares e uma rua com vento a favor.Não devia ter ousado. O nome desse cais não trazia bons presságios. Por que não Dionísio ao invés de Apolo? Seria mais aprazível à alma. Alma? Que alma?

Alma: do latim anima, o princípio espiritual do homem, concebido como separável do corpo e imortal.

Alma...sou uma?


Por coincidência, hoje é segunda e minha mãe dizia ser bom acendermos velas para as almas nesse dia. As almas carecem de luz, dizia-me.
Ouvindo o som estridente dessa sirene, creio que, antes de luz, as almas carecem é de silêncio. De silêncio e de paz...



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XLV◄